Midsommar – O Ritual

Um filme de Ari Aster, o mesmo realizador do Hereditary, que pelos vistos tem uma preferência por cultos.

Ao contrário de muitas pessoas, não gostei do Hereditary; acho que o drama foi excelente, e que o terror, quando apareceu, também foi excelente. Mas não acho que se tenham conjugado bem, e o filme acabou por passar uma sensação de ser…desconjuntado, nem era um drama completo, nem um filme de terror completo.

Mesmo assim, estava muito curiosa por ver o Midsommar, até porque queria avaliar se tinha havido progresso ou não. E acho que houve. Um muito positivo.

Vou tentar não contar tudo, mas o final do filme é algo estranho, pelo que sinto necessidade de falar sobre ele. Não se preocupem, eu aviso quando chegar a essa parte. Assim podem ir ver o filme, e depois voltar para ler o resto.

Midsommar começa com Dani, a tentar ligar aos pais e a seguir ao namorado, Christian, por estar preocupada com a sua irmã. Christian prova não ser grande ajuda, ao nem tentar empatizar com a preocupação de Dani, atribuindo o comportamento da sua irmã a mais uma tentativa de chamar a atenção. Logo de seguida percebemos porquê: Christian já não quer estar numa relação com Dani, mas não tem a espinha para tomar uma decisão acerca disso, nem sobre nada que seja importante na sua vida, tal como a sua tese, como o seu amigo Josh lhe aponta.

Vemos aqui um traço importante: nenhuma personagem é boa. Quero dizer, todas as personagens têm falhas de caráter que se irão revelar essenciais para os seus desfechos no filme. O que por sua vez implica que as personagens que o filme quer que consideremos repreensíveis – nomeadamente o Christian e o seu amigo Mark – sejam extremamente irritantes. Ou se calhar sou eu que os vejo assim por antipatizar com eles assim que apareceram.

Voltando à história, Christian atende o telefone a Dani, que grita, chora e geme como um animal ferido (a atriz é excelente, Nossa Senhora, fiquei FÃ!): os pais foram mortos pela irmã, que se suicidou; a mensagem que tinha enviado era uma despedida. Se Dani já tinha problemas ao nível do equilíbrio emocional, ao perder toda a família de uma só vez, às mãos da própria irmã, ainda por cima, descompensou totalmente. Meses depois, ainda com Christian, Dani ainda está a tentar recuperar, e num esforço para passar mais tempo com pessoas vai com Christian encontrar-se com os amigos deste. É aqui que descobre a viagem que estavam a planear à Suécia, uma vez que Christian nunca confirmou a Dani que iria efetivamente, provavelmente por acreditar que já se teria livrado dela quando chegasse a altura de viajar. Sentindo-se culpado, convida Dani a juntar-se ao grupo, convencido de que ela vai recusar, mas ela aceita.

O resto do filme decorre em Hårga, uma localidade rural isolada na Suécia, onde a comuna/culto onde o amigo de Christian, Pelle, foi educado realiza um festival para honrar o solstício de verão. Se inicialmente a estranheza parece ser devida a diferenças culturais, o ambiente torna-se gradualmente desconfortável, até atingir proporções verdadeiramente sinistras e horripilantes quando tem lugar a ättestupa, uma celebração em particular. De acordo com as tradições locais, não é suposto que as pessoas vivam para além dos 72 anos. Assim sendo, quando atingem esta idade os idosos basicamente suicidam-se. E se a morte em si podia ser relativizada como uma coisa cultural, a forma como decorre não pode. E não estou só a falar da perspetiva das personagens, se eu consigo compreender a ideia, o modo como é aplicado é simplesmente bárbaro e desumano, e é muito fácil errá-lo, fazendo com que a desculpa de “é melhor assim porque se evita sofrimento desnecessário” caia por terra.

É a partir daqui que o terror se manifesta verdadeiramente, com um sentimento de apreensão e paranóia constantes.

E agora, deixando de fora o que acontece depois da cerimónia acima mencionada, vou falar do final, e do porquê de eu o considerar agridoce. Spoilers ahead.

Se por um lado o culto ganhou, com os sacrifícios e com a conversão da Dani, por outro lado acho que ela fica melhor entregue ao culto do que às pessoas com quem estava.

Antes, mesmo com os pais vivos, Dani tinha problemas emocionais, e não tinha apoio para eles – o namorado não ajudava em nada, e a única amiga que ela parecia ter, nunca mais apareceu depois da morte da família; ela estava completamente sozinha. A Dani tinha claramente uma tendência para acumular os sentimentos, para se recusar a sentir seja o que for. Ela finge. E isso só a prejudica. Por exemplo, só ouvir alguém a dizer aleatoriamente a palavra “família” é o suficiente para a fazer ter um ataque de pânico. Mesmo com o trauma e o luto, tendo em conta que ela (supostamente, é só uma coisa que é mencionada) fazia terapia, ela devia conseguir lidar melhor com isto. Gatilhos existem e são extremamente sérios, mas quando se tratam de palavras comuns – como “família” – é suposto que as pessoas procurem formas de lidar com eles, tendo em conta que evitá-los completamente não é opção.

Com o culto, por mais estranho que seja o hábito deles de “sentirem” com os outros – quando alguém se magoa, por exemplo, toda a gente grita de dor – acho que a Dani precisava de algo do género. A cena perto do final, onde ela foge para chorar sozinha, ela tenta não gritar, não fazer barulho, empurrar os sentimentos todos para longe, tal como sempre fez. Mas a mulheres com quem ela estava não a deixam fazer isso. Começam a chorar e a gritar juntamente com ela, seguem os movimentos e espasmos do seu corpo, imitam a sua respiração. E é só através disto que eu acho que ela sente finalmente algum alívio. Foi preciso uma sessão de grupo de gritos primitivos para que ela se permitisse sentir alguma coisa.

Isto, juntamente com a hospitalidade e simpatia do culto, que muitas vezes é genuína, tendo em conta que a Dani não os desrespeita, é o suficiente para a fazer sentir aceite e, ironicamente, segura; em casa. É por isto que ela sorri no final do filme. Porque ela se sente em casa. Porque ela se permitiu finalmente sentir coisas negativas, e a vingança é parte disso (ainda que eu ache que drogarem e violarem o Christian foi castigo suficiente, mas eu não o aturei como ela o aturou, nem tinha o estômago cheio de drogas biológicas).

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Parte do guião do filme: “Ela rendeu-se a uma alegria que só é conhecida pelos loucos. Ela perdeu-se completamente, e é finalmente livre. É horrível e é belo.”

 

Porque ela sente que pertence ali. No entanto, o sítio onde ela sente que pertence é um culto homicida. Como eu disse. Agridoce.

 

Por hoje é tudo pessoal, se já viram o filme digam o que acharam! Beijinhos e até à próxima!

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