Animes de Outubro

Para continuar com a tradição estabelecida no ano passado, vou voltar a fazer recomendações de entretenimento que têm um sabor especial nesta altura do ano.

Desta vez vou fazer uma estreia no blogue: vou falar de animes, ou desenhos-animados japoneses. Uma das coisas que eu gosto nos animes é que, ao contrário da animação mais ocidental, os animes contam histórias de todos os géneros, desde aventuras do dia-a-dia, aventuras, fantasia, ação, drama, e sim, até thriller e terror. Adivinhem sobre qual categoria vou falar.

Tenho dois tipos de recomendações – uma série, e um filme.

 

A série chama-se Monster, e tem 62 episódios.

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Monster conta a história do Dr. Tenma, um brilhante cirurgião cerebral japonês a trabalhar num hospital alemão. Quando a história começa, Tenma tem tudo encaminhado: um trabalho que adora e onde para além de ser bem-sucedido vê esse sucesso reconhecido; namora com a filha do diretor do hospital e está a planear casar com ela; e é um dos primeiros na linha de sucessão para diretor do hospital.

Mas tudo desaba numa só noite.

Chegam ao hospital duas urgências, ambas a exigir cirurgias complexas: uma dessas urgências é o presidente da cidade, e a outra é um menino, com um ferimento de bala na cabeça.

Tenma quer imediatamente operar a criança, que chegou primeiro, mas o Diretor Heinemann  ordena-o que opere o presidente, por ser a pessoa de estatuto mais importante, logo, a seu ver, o caso mais urgente. Inicialmente pressionado, Tenma recusa-se a obedecer, e vai operar o menino.

Tenma acaba, contra todas as hipóteses, por salvar a vida da criança, mas o presidente não resistiu, e Tenma é culpado pelo seu falecimento, sendo sumariamente despedido. Como se não bastasse, quando procura a namorada para ter algum consolo, ela dá-lhe com os pés, como se só se tivessem conhecido há dois dias.

A criança foge do hospital, e tanto o Diretor Heinemann como os restantes médicos que o apoiaram no despedimento de Tenma morrem misteriosamente, o que faz com o despedimento fique sem efeito. A polícia suspeita de Tenma, mas não tem provas.

9 anos mais tarde Tenma é diretor do hospital. E descobre que a criança que salvou naquela noite fatídica se tornou num assassino em série. Tenma assume então a responsabilidade de localizar Johan e corrigir o erro que cometeu ao salvar-lhe a vida. Só que Johan encara isto como um jogo, deixando-lhe pistas propositadamente, como se de um rasto de migalhas se tratassem, garantindo que Tenma fica a conhecer intimamente todos os crimes que Johan cometeu, graças a ele, a única pessoa que ele afirma não ser capaz de matar: o homem que o salvou.

A progressão da história é um bocadinho lenta, não vou mentir, há partes que podiam ter sido resolvidas num único episódio em vez de dois. Mas apesar de por vezes ser lento, o ritmo da história é tão consistente que acaba por ser atmosférico. É muito fácil preocuparmo-nos com as personagens, e temos a plena noção de que eles estão constantemente em perigo.

Monster é um policial que quase não tem polícias, uma história tensa, que nos deixa sempre com um ligeiro friozinho no estômago. É mesmo, mesmo, muito bom.

Perfect Blue

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Perfect Blue é a história de Mima, uma jovem cantora pop que decide mudar de carreira e tentar ser atriz. Seguimos tanto a sua vida profissional como a sua vida pessoal, e as mudanças que ocorrem em ambos os contextos. Com Mima disposta a tudo para se provar como uma atriz séria, e não como só uma boneca que cantava, a sua saúde mental começa a deteriorar-se, e tanto Mima como a audiência começam a questionar o que é ou não real.

Uma coisa que eu adoro é, sem dar muitos spoilers, o facto do filme nunca colocar a culpa na Mima. Sim, ela faz escolhas que nos parecem erradas, não pela sua natureza, mas porque sabemos que ela não quer verdadeiramente seguir em frente com elas, que se está a obrigar a fazê-lo, e que está a sofrer com isso.

Está patente no filme uma crítica social fortíssima, ao modo como a sociedade explora os artistas, uma crítica à busca constante de sangue fresco. Também existe uma crítica a um aspeto muito típico da cultura japonesa e da sua relação com grupos pop – o sentimento de que a imagem é tudo. Isto é, o sentimento de que os artistas pop, sobretudo os grupos femininos, têm que construir bonecos, que estão sempre felizes, e satisfeitos, e bonzinhos, e afáveis, e adoráveis, e fundamentalmente inocentes. E é este culto da pseudo-inocência que é, a meu ver, o mais criticado pelo filme. Porque é completamente hipócrita.

Enquanto estrela pop, a Mima é adorada por ser bonita e fofinha e inocente, e a sua partida da banda até não foi mal recebida pelos fãs (pelo menos pela maioria deles), que procuram apoiá-la no seu novo caminho. Mas ao mesmo tempo ela é constantemente rebaixada por ser uma estrela pop, que é certamente burra e infantil e não sabe fazer nada sem ser bonita – tudo coisas que lhe eram exigidas, atenção. E é por ter noção de que ninguém a leva a sério que a Mima se sujeita às coisas a que se sujeita. E depois disso, toda a gente, tanto os fãs como os que não tinham fé nela, teve um prazer sádico em vê-la a fazer tudo para se separar da imagem da estrela pop. Ninguém se preocupou com ela, só queriam ver o que é que ela ia fazer a seguir.

Por mais que eu adore o filme, sinto que devo avisar que há cenas…epá muito desconfortáveis. Spoilers, mas vão perceber porquê: há uma cena de violação. Literalmente uma cena, a personagem da Mima é uma stripper que acaba por ser violada. Uma parte do desconforto inicial vem do choque entre a cena a ser interpretada e as interrupções de filmagem, que nos relembram constantemente de que aquilo não é real. O ator que contracena com a Mima até lhe pede desculpa. Mas rapidamente as interrupções acabam, e vemos a cena. E o desconforto não se limita a vir do que está a ser representado na cena em si; vem também da maneira como a cena está a ser filmada. Vemos close-ups de várias câmaras, e a cena é filmada como se fosse uma cena de sexo. É filmada como se fosse suposto ser sensual, e não horrível. E pode ler-se aqui uma outra crítica, desta feita, à violência gratuita, que está no centro de muitas formas de entretenimento, e sobretudo uma crítica à forma como essa violência é representada.

Também há partes do filme intencionalmente confusas, que permitem manter o mistério até ao final do filme, por isso é que não falei delas – não quero estragar a experiência. Para além da recomendação, deixo-vos também com dois vídeos que analisam a maioria daquilo que não mencionei. E se continuarem com dúvidas, a internet resolve. Há algumas teorias contraditórias, mas é fácil escolher aquela que vos parecer a mais correta.

 

Por hoje é tudo pessoal! Se já viram algum dos animes digam o que acharam! Se ficaram curiosos, depois de verem digam o que acharam!

Beijos e até à próxima!

 

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