Joker

Desde já, peço desculpa à Inês… normalmente é ela quem publica sobre filmes inspirados pela BD… #sorrynotsorry

São raras as vezes que vou ao cinema, até porque tenho de me deslocar uns bons quilómetros para o fazer, mas quando o filme é de uma excelência total cada quilómetro vale a pena. Neste filme, Joaquim Phoenix é o actor que veste de forma extraordinária a pele Arthur Fleck.

Arthur vive com a sua mãe (Penny Fleck), cuida dela como o filho devotado que é, trabalha como palhaço numa pequena empresa e é doente mental. Arthur sofre de epilepsia gelástica. São ataques de riso incontroláveis e sem motivo aparente, embora quem veja o filme observe que estes ataques se dão quando Arthur se sente nervoso, triste ou com medo. Apenas os sentimentos negativos parecem ser o gatilho para estes ataques de riso, que deixam todos desconfortáveis à sua volta. Daí o pobre coitado, traga consigo uns cartões a explicar o motivo do seu riso descontrolado. Anteriormente já esteve internado num hospital psiquiátrico, agora apenas tem que realizar visitas obrigatórias para monitorizarem, não só o seu comportamento como os seus sentimentos, até que esse apoio social é cortado pelo estado.

No dia em que Arthur é demitido, no comboio tem um ataque de riso quando três jovens embriagados e bem parecidos (ricos) estão a incomodar uma senhora. E as atenções voltam-se para o desgraçado… “o que é que tem tanta graça?” Os três jovens começam a espancá-lo, até que… num momento faz-se um clique na mente de Arthur e este usa a arma que um seu colega (amigo do diabo) lhe deu e usa-a em legítima defesa. E é, ai, nesse momento que pela primeira vez sentiu poder. Poder sobre si e sobre os outros. Já ninguém lhe poderia fazer mal.

Nesse momento, e sem querer, Arthur deu inicio a manifestações violentas – a população de Gotham City está farta das políticas de um sistema que apenas favorece os ricos e que ignora e despreza quem é de classe inferior. Os manifestantes, em vez de condenarem a morte dos três jovens, viram isso como um sinal de vingança e de mudança, o símbolo que adotaram foi a cara de palhaço – a cara de Arthur quando este cometeu os homicídios.

Apesar de a sua vida não ser o mar de rosas que se possa imaginar, mantém o sonho de um dia ser comediante e assim, faz pequenas actuações de stand-up, com o seu peculiar estilo de humor. Até que um dia, quando estava a ver o seu programa preferido (que por acaso é de comédia), vê que é passado um clip de uma das suas actuações e que o homem que ele mais admira (o apresentador desse programa) goza com ele e chama-o de joker – como alguém que quer ser ou tenta ser engraçado e não tem piada nenhumaA humilhação que sofre para além de ser gigante, parte de alguém que ele admira. Vocês devem conhecer o sentimento, correcto?

Ainda assim, este foi convidado para o programa e aceitou. Todos podemos adivinhar o porquê de ter sido convidado.

A determinada altura Arthur, investiga o passado da sua mãe, e descobre que foi adoptado, que na sua infância foi violentado pelos namorados da sua mãe, negligenciado pela mesma e que esta foi internada no hospital por psicose e transtorno de personalidade narcisista e que esta fantasiou um romance com o seu empregador na altura – o Senhor Wayne. Isto, explica muita coisa. Também faz com que Arthur aceite quem realmente é. Tudo o que aconteceu na sua vida contribuiu para se ter tornado na pessoa que é.

Arthur prepara-se a rigor para o programa de televisão, vestido de palhaço. É oficialmente apresentado ao mundo como Joker e dá um discurso inesquecível.

Tomei conhecimento através das redes sociais que este filme foi proibido nos cinemas de alguns estados americanos e até de alguns países, devido à violência gratuita que apresenta. Na minha opinião – que vale o que vale! – essa decisão foi, uma tremenda estupidez, qualquer pessoa com dois dedos de testa (diga-se inteligência) e senso comum, repara que o que aqui é retratado é o doente mental e a sua estigmatizarão. Talvez tenha sido por abordar a doença mental desta forma que tenha sido proibido, porque se fosse pela sua violência, os filmes de terror e os de acção de certeza absoluta que não existiriam.

Acredito que, se alguém estivesse estendido a mão a Arthur (e sim, eu sei que é uma personagem fictícia, mas serve bem como exemplo), dado o devido apoio e demonstrado afecto, talvez nunca tivesse existido um Joker. Numa cena onde Arthur escreve no seu diário, pode-se ver que ele tem noção que quem tem uma doença mental não é aceite na sociedade como individuo, ele escreve algo do género “o facto de se ter uma doença mental é as pessoas esperarem que não te comportes como alguém que seja doente mental”. Contudo, não estou de maneira nenhuma a desculpabilizar os comportamentos violentos que Arthur – agora Joker – tem, devido à(s) sua(s) doença(s) mental(ais). Ninguém tem o direito de, por motivo for, tirar a vida a outra pessoa.

Peço desculpas a quem acha que contei praticamente tudo do filme… até sou capaz de o ter feito… Acreditem em mim, mesmo que vos tenha contado talvez quase 2/3 do filme, a sensação é completamente diferente se forem ver o filme. Eu não consigo de forma nenhum reproduzir através de palavras todas as sensações e sentimentos que o filme transmite através de imagens e sons.

Voltando a uma conversa mais “leve”, a verdade é que todos os fãs de BD colocaram uma enorme pressão sobre os ombros de Joaquim Phoenix, porque o anterior Joker, (sorry Leto) Ledger representou a personagem de uma forma realmente incrível. Ninguém estava à espera de uma performance tão extraordinária quanto esta. Como também ninguém estava à espera que um filme inspirado em BD fosse tão “pesado”… e levado a sério, criando polémicas e abrindo discussões.

Uma salva de palmas, meus senhores!

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