A Hipnotizante Escrita de Mia Couto

Para quem não sabe, Mia Couto é um escritor Moçambicano, por cuja escrita eu me apaixonei imediatamente.

Uma das razões principais para eu A-D-O-R-A-R a forma como o Mia Couto escreve, é a forma como ele utiliza o realismo mágico, um género também muito presente em “100 Anos de Solidão”, de Gabriel García-Márquez, e nas histórias da Isabel Allende. O realismo mágico é essencialmente a presença de “poderes”, presenças e influências sobrenaturais num mundo que, tirando isso, é normal, igual à nossa realidade. Acho que a ideia da existência de coisas fantásticas num mundo familiar, a ideia de que superstições e lendas, elas próprias familiares, efetivamente existem, é aquilo que mais me atrai no realismo mágico, é uma mistura perfeita.

Mas o estilo literário não é o único motivo pelo qual considero o Mia Couto um escritor maravilhoso. Ele é naturalmente capaz de escrever do ponto de vista de múltiplas personagens, sempre de maneira consistente com as suas personalidades e experiências de vida, mesmo quando se tratam de personagens e situações pelas quais eu tenho a certeza absoluta que ele nunca passou. Tais como, ser uma mulher duma tribo encurralada por guerreiros/assassinos de uma outra tribo rival, e cair ao chão, cortar-se e gritar, e fingir com sucesso que está a parir um peixe que na verdade acabou de pescar. Ya, isto é uma cena num dos livros. E nem é das mais estranhas. ADORO!

Isto leva-me a um outro motivo: a capacidade que o Mia Couto tem de escrever de maneira realista personagens imensamente distantes de si próprio. Estou-me a referir não só ao isolacionismo, culturas e rivalidades tribais, entre elas próprias e com os Portugueses, mas sobretudo à forma como ele escreve as suas personagens femininas. Os escritores homens, sobretudo aqueles de uma certa faixa etária, têm tendência para criar personagens femininas redutoras, mesmo quando têm boas intenções. Ou criam megeras autênticas, que por um lado são sádicas e horríveis, mas por outro acabam sempre por se apaixonar pelo protagonista; ou criam mulheres frias e distantes, basicamente demasiado masculinas, que negam e repudiam, quando não odeiam abertamente, tudo o que é feminino, incluindo outras mulheres; ou criam interesses românticos inocentes e virginais, mesmo que se tratem de prostitutas, ou de mulheres casadas há décadas, ou simplesmente de mulheres que assumem que gostam de fazer sexo, que o protagonista salva de uma qualquer situação horrível, garantindo assim a gratidão imortal do interesse romântico; ou criam mulheres fortes e independentes, que na verdade não têm personalidade nenhuma, e acabam por depender do protagonista para quase tudo.

Mas não o Mia Couto. O Mia Couto consegue pôr-se no lugar das suas personagens femininas, expondo os seus medos e as obrigações e tradições que se sentem obrigadas a cumprir. Consegue criar personagens multidimensionais e complexas, cujas ações e decisões fazem sentido. Mia Couto não tem medo de criar personagens odiosas, nem personagens complicadas, que sendo boas tomam decisões más ou cruéis, nem sempre de forma justificada, e vice-versa.

Acho que é fundamentalmente isto que eu amo na escrita do Mia Couto: ele é destemido. Não tem medo de criar personagens realistas, que num capítulo nos têm completamente do seu lado, e no capítulo seguinte nos fazem querer gritar de frustração. E sobretudo não tem medo de mostrar o quão feio o mundo e os seus habitantes podem ser. Sem nunca ser gráfico, sem representar violência de forma gratuita, e sem glorificar a violência, Mia Couto escreve e descreve cenários de guerra e realidades saídas de pesadelos, de uma forma que, pessoalmente, não me incomoda por aí além. O exemplo mais flagrante disto que encontro tem a ver com o tópico de agressões sexuais. Um tópico que, devido à sua natureza horrível, eu procuro evitar, até porque quando aparece em obras de ficção acaba por ser de alguma forma mal feito, na minha opinião. Mas o Mia Couto, não sei como, consegue abordar esses temas, e a frequência horripilante com que eles ocorrem, de uma maneira que não me incomoda. O facto de ele se colocar sempre do lado das vítimas, deste tipo de agressões mas não só, também ajuda.

Acho que este último ponto é também algo que eu adoro e admiro imenso: ele não tem medo de dizer claramente quem tem e não tem razão. Ele não tem medo de apontar que as mulheres eram/são mais vitimizadas do que os homens (até porque nos seus livros, por norma, os homens sofrem nas guerras, mas mulheres sofrem também durante tempos de paz, só mudam os agressores – parafraseando uma frase do próprio autor), nem tem medo de enumerar e descrever todas as porcarias que os Portugueses fizeram, e as atrocidades que cometeram, por uma variedade de razões. Ele não tem medo de criticar. E eu amo isso.

Por hoje é tudo pessoal, beijinhos e até à próxima!

Deixar uma resposta