Cam – Os Medos do Novo Milénio

Em termos de terror, temos uma protagonista pouco convencional, e um inimigo igualmente estranho.

Alice, também conhecida como Lola, é uma cam-girl, faz vídeos de natureza erótica e sexual na internet, e ganha dinheiro com isso, graças à legião de fãs que adquiriu ao longo do tempo.

O filme começa no final de um desses vídeos – sessões ao vivo –, onde alguém no chat começa a incentivá-la a mutilar-se, e a matar-se. Lola bloqueia a pessoa, mas ela aparece uma e outra vez, e mais pessoas no chat começam a exigir as mesmas coisas. Lola, aparentemente perturbada e farta de todos aqueles comentários odiosos, utiliza um dos seus acessórios – uma faca – para cortar o próprio pescoço. Ao fim de uns segundos levanta-se, e despede-se do seu público, até à próxima sessão.

Depois de encerrar a sessão vemos a Alice a falar com Tinker (que paga para poder falar com ela), um dos seus maiores fãs, e a pessoa que começou com os comentários violentos. Tudo isto foi um plano entre eles, para tornar as sessões de Lola mais interessantes, atraindo assim mais público, e fazendo com que ela suba no ranking do site, ganhando consequentemente mais dinheiro, claro.

Durante esta conversa, vemos a casa de Alice, uma casa grande, nova, para a qual ela ainda se está a mudar. Claramente o negócio está a correr-lhe bem. Alice vai ao cabeleireiro onde a mãe trabalha, para se arranjar para uma sessão especial. Embora o seu irmão mais novo saiba como Alice ganha a vida e pareça não se importar desde que a irmã não comece a ser perseguida ou algo do género, a mãe de ambos não faz ideia.

Na sessão dessa noite, Lola torna-se na cam-girl número 50, um patamar que ela se andava a esforçar muito por atingir. Aqui vemos a existência de uma rivalidade entre ela e Princess_X, uma das outras raparigas do site, que não faz sessões despida, e que começa uma sessão especial, em que vai tirando uma peça de roupa por cada patamar que a Lola descer. A Princess criou um ódio de estimação pela nossa protagonista desde que ela lhe roubou um cliente que gasta muuuuito dinheiro com as raparigas de quem gosta.

Decidida a recuperar o seu lugar, Lola junta-se com Fox, uma amiga, para fazerem uma sessão juntas. Tinker tenta demovê-la, pelos vistos porque Lola está a considerar fazer algo potencialmente perigoso nessa sessão, mas ela fá-lo na mesma, e acaba num lugar ainda mais elevado.

E é aqui que o terror começa. Alice tenta entrar na sua conta, mas não consegue, está completamente vedada. E, no entanto, está a fazer uma sessão neste momento. Inicialmente convencida de que alguém pirateou a sua conta e está a passar vídeos antigos, começa a desconfiar de algo mais sinistro, quando vê a pessoa a responder aos comentários. Para tirar teimas, cria uma conta para poder falar no chat, e a pessoa cumprimenta-a. Aquilo ERA efetivamente ao vivo. Uma pessoa idêntica a ela, com o mesmo cenário e os mesmos acessórios. E que agora tinha a conta dela.

Como a assistência do site não ajudou em nada, Alice liga à polícia, para denunciar uma usurpação de identidade. Mas a polícia diz que não tem nada a ver com coisas que se passam na internet, que se ela não queria que isto acontecesse não devia ter-se exposto assim, e chegam mesmo a assediá-la, com perguntas desnecessárias sobre se ela se encontrava ao vivo com os clientes, e o que é que fazia com eles. Tendo em conta que o filme foi escrito pela ex-cam-girl Izza Mazzei, tenho a distinta sensação que esta parte da história foi inspirada por experiências reais da sua vida.

Como se isto não fosse suficiente, Alice vê Tinker atrás dela no supermercado. Na cidade onde ela vive. E onde ele nunca tinha posto os pés. Alice confronta-o, zangada com ele, mas acaba por lhe pedir ajuda com a situação da conta, já que ele trabalha com computadores.

Tinker acaba por se revelar inútil, criando suspeitas de ter sido ele a arquitetar isto para se vingar da Lola por ter preferido o cliente que tinha roubado. Mas os mundos de Alice acabam por colidir de forma estrondosa, quando dois miúdos na festa de aniversário do irmão mostram um vídeo dela (na verdade, da sua sósia, que entretanto estava a ter mais sucesso do que ela alguma vez teve) a toda a gente, expondo assim o seu emprego e a sua vida íntima.

Como a Alice é o tipo de pessoa que gosta de esfregar sal nas feridas, ela vai ao site onde costumava trabalhar, e vê as raparigas nos primeiros lugares. E repara que todas têm algo em comum – Tinker.

Farta de ter a vida a ir pelo cano abaixo, Alice vai atrás de Tinker, que diz que a culpa não é dele, que não consegue controlar o que acontece, que só consegue perceber quando vai acontecer. E é aqui que conhecemos o inimigo. Pelos vistos trata-se de um programa de computador, uma espécie de inteligência artificial, capaz de copiar e imitar humanos na perfeição. Como todos os dados da Lola estavam em vídeo, o vírus só tinha que os copiar.

E ela não foi a única vítima. A cam-girl no primeiro lugar do ranking – Baby – anuncia um vídeo em conjunto com a Lola. Naturalmente intrigada, Alice vê esse vídeo, e descobre então que a própria Baby não passa também de um programa de computador, e que a verdadeira rapariga por detrás da cópia virtual está morta há já algum tempo. Ao investigar outras mulheres, Alice descobre que a esmagadora maioria daquelas no topo do ranking não passam de cópias virtuais, de tentáculos que o vírus espalhou pelo site.

Alice percebe de uma vez por todas que Tinker é inútil, quando o apanha a masturbar-se numa sessão privada com a sua sósia digital, mesmo sabendo que não era real. A cópia vê Alice. E não a reconhece. Nas palavras da própria: “aquela coisa nem sabe com o que é que se parece”. Ou seja, o vírus copia a aparência de uma pessoa, mas não tem inteligência para perceber que está a usar essa aparência. Não é um programa malvado, que quer dominar o mundo. É um programa, que faz aquilo para que foi criado: copiar.

Agora é a parte em que eu vos assusto, porque, para quem não sabe, fica aqui a informação: isto é possível. Não ao nível do filme, com uma inteligência artificial autónoma, mas é possível criar cópias virtuais da aparência e da voz de alguém. É possível pô-los a dizer e até a fazer coisas que nunca fizeram nem disseram. E foi isto que tornou o filme verdadeiramente aterrador para mim.

Alice vai tentar falar com a família, e a sua mãe diz-lhe que a apoia na sua escolha de carreira. Gosta da teatralidade dela, e do quão feliz ela parece. Alice conta-lhe que lhe roubaram a conta, e a mãe dá-lhe o empurrão que precisa para a recuperar. Ela tem um plano.

Alice pega na conta temporária que tinha criado, e paga por uma sessão privada com Lola. Com um espelho atrás de si, Alice cria uma imagem onde tanto ela como a sua sósia digital aparecem refletidas infinitas vezes. Alice propõe um jogo a Lola, em que ambas têm que realizar ações e imitar-se uma à outra, e o chat escolhe quem ganha. Se Alice ganhar, ela pode pedir a Lola qualquer coisa – e vice-versa.

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A tensão aqui não vem tanto da possibilidade da Lola poder pedir a Alice para fazer algo que a magoasse – a Lola limita-se a copiar a personalidade dos vídeos, logo não é capaz de “ser má”, uma vez que a Alice nunca o foi nos seus vídeos –, mas sim do medo da Alice de nunca conseguir recuperar a sua vida, e de que todos aqueles que se diziam seus fãs e “amigos” se deixassem enganar tão facilmente ao ponto de darem as vitórias à Lola, independentemente da qualidade de cada “performance”.

Mesmo assim, Alice tem que recorrer a atos de violência contra si própria para ganhar, atirando a cara contra o tampo da secretária repetidamente, partindo o nariz em vários sítios, e ficando muito perto de desmaiar. Como a audiência da Lola se tinha habituado aos seus espetáculos de violência, até mesmo antes da conta ter sido invadida, eles convencem-se de que todo este espetáculo é arranjado, possivelmente gravado anteriormente, e cheio de efeitos especiais, e decidem dar a vitória à Alice, pelo realismo da performance, e pelo fator novidade. Com esta vitória, Alice pede a Lola a password da sua conta, e mesmo antes de colapsar apaga a conta, e a sua sósia virtual, para sempre.

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O filme acaba com Alice a ser penteada e maquilhada pela mãe, com o nariz já curado, mas claramente torto e muito maltratado. Alice está a preparar-se para voltar ao mundo das cam-girls, começando do zero, com um novo nome, e desta vez com uma nova imagem, com perucas e maquilhagem forte, possivelmente para se proteger.

Já vi interpretações de que o final do filme ou é trágico, ou não faz sentido. Mas eu vou discordar. A Alice gosta de ser uma cam-girl. Ela não o fez porque estava desesperada, ou porque foi obrigada. E atrevo-me até a dizer que ela não o fez por ser dinheiro fácil. Primeiro, porque não era necessariamente fácil: ela esforçava-se por planear, agendar e inovar os vídeos dela. Segundo: porque eu acho que ela gostava genuinamente do que fazia. Ela não fazia aquilo só pelo dinheiro, e a pancada dela com o ranking tinha a ver com a sensação de ter finalmente o seu trabalho árduo a ser reconhecido.

Portanto o final, para mim, é a Alice a não deixar que lhe tirem aquilo que ela gosta de fazer. E o olhar que ela lança ao ranking, na minha opinião, é ela a lembrar-se para ter cuidado, e para não voltar a cair no radar do vírus outra vez. Afinal, ela conseguiu comprar uma casa enorme bem antes de chegar a um lugar importante. Não há-de ficar sem rendimentos por causa disso.

Uma coisa da qual eu gosto particularmente neste filme é o facto de não seguir aquilo que se espera dele. Desde os anos 80 que existe uma ligação nos filmes de terror, entre sexo e morte. As famosas final girls, as que sobrevivem até ao fim e que derrotam o vilão, eram sempre ou virgens, ou simplesmente as únicas que não andavam a dormir com toda a gente. E chegamos aos dias de hoje. Onde a personagem principal do filme é essencialmente uma trabalhadora do sexo. Claro que a expectativa, mesmo que inconsciente, seria “ah, ela vai meter-se em sarilhos, e aprender uma lição”, que é como quem diz “ela vai perceber que o que está a fazer é errado, e vai mudar de vida”. Mas não foi nada disso que aconteceu, e eu acho que é por isso que o final foi interpretado como sendo “mau” por tanta gente. Afinal, quem raio é que escolheria aquela vida?

Segundo o filme, a Alice. E muita gente antes dela. E essa escolha nunca é demonizada. A única vez que vemos alguém a descobrir, e a julgar, ficamos do lado da Alice, como o filme quer que fiquemos. Porque o filme obriga-nos a conhecer uma personagem com a qual a maioria de nós nunca se identificaria. Obriga-nos a encarar uma trabalhadora do sexo como um ser humano. E obriga-nos a pensar sobre se teríamos a mesma atitude se fôssemos uma das pessoas anónimas naquela festa de anos.

 

Sei que já contei o filme todo, mas este é daqueles que eu tinha que comentar. Deixo-vos o trailer na mesma, para terem uma ideia da estática do filme em geral.

 

Por hoje é tudo pessoal, beijos e até à próxima!

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