Herança Fatal: O Legado de Agatha Christie

Então, para quem não sabe, eu sou inveterada da Agatha Christie, a rainha dos policiais. Os livros dela foram os primeiros livros “a sério” que li, e apaixonei-me perdidamente. Como os livros eram da minha mãe, o primeiro contacto que tive foi com aquele que se viria a tornar a minha personagem favorita de Agatha Christie, e uma das minhas personagens favoritas de todo o sempre: Hercule Poirot. E apesar do sucesso de Miss Marple, ou do sucesso de outras histórias, Poirot continua a ser O símbolo da Agatha Christie, a sua personagem mais famosa, e na minha opinião a melhor personagem que ela alguma vez criou (juntamente com Ariadne Oliver, a personagem mais cómica que ela alguma vez criou, e que gosta de arreliar o Poirot).

 

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A melhor dupla de sempre: David Suchet como Poirot, e Zoë Wanamaker como Ariadne Oliver

E o Poirot tornou-se num fenómeno tal, que a própria Agatha se afeiçoou muito a ele, certificando-se de que ninguém poderia continuar a escrever histórias com a sua personagem, escrevendo um último livro no qual o Poirot morre.

E chegamos aqui.

Décadas depois, aparece uma nova história do Poirot, um caso do qual ainda ninguém tinha ouvido falar. Mas como?

É aqui que entra Sophie Hannah. Sophie Hannah é a primeira e única pessoa a receber autorização dos descendentes de Agatha Christie para escrever com o Poirot. Nunca antes tinha acontecido, só existiam adaptações de histórias que Agatha Christie tinha escrito (a minha favorita é a série que conta com David Suchet a interpretar Poirot), nunca aconteceu criarem-se histórias novas. Até agora.

 

Herança Fatal começa quando Hercule Poirot é convidado a passar uma temporada no campo. A anfitriã é a famosa escritora Athelinda Playford, que recebe na sua mansão isolada um improvável grupo de pessoas. Entre elas, Poirot encontra o amigo Edward Catchpool, inspetor da Scotland Yard. Athelinda prometera diversão, mas o ambiente é tenso. O mordomo tem um comportamento (no mínimo) bizarro. A filha, a bela e impertinente Claudia, distribui o seu rancor pela mãe, o irmão e (aparentemente) o mundo inteiro. Os restantes convidados não parecem ter nada em comum. E será a própria Athelinda a deitar mais achas para a fogueira ao anunciar uma alteração de última hora ao seu testamento. O seu plano consiste em deserdar os filhos e legar a fortuna a alguém que morrerá muito em breve.

Qual o motivo por detrás desta súbita e estranha decisão? Poirot não deixa de pensar que tudo não passa de uma provocação. E quando, inevitavelmente, é cometido um crime, cabe-lhe a ele assumir o comando… pois todos naquela casa escondem segredos que apenas as celulazinhas cinzentas de Poirot conseguirão desvendar…

 

Como é óbvio, não vou entrar em pormenores sobre a história, nem vou contar quem é o assassino, nem quem foi assassinado. Mas vou responder àquela pergunta que eu meti nas vossas cabeças: é uma história digna da lenda que é a Agatha Christie?????

Sim. Absolutamente. O Herança Fatal não é o primeiro livro de Sophie Hannah com Poirot, mas é o primeiro que eu li, e por isso aquele no qual eu me vou focar. A Agatha Christie tinha o dom de descrever uma cena, ao ponto de chegar aos pormenores dos veios das folhas das árvores que rodeavam o sítio onde alguém tinha sido assassinado, e manter tudo isso extremamente interessante, como se o número de veios das folhas fossem revelar o mistério! Isto é um estilo literário extremamente difícil de reproduzir. E apesar do estilo de Hannah ser muito próximo do de Christie, embora eu não ache que se trata de uma tentativa de o “copiar”, nota-se a diferença. Hannah é capaz de escrever um mistério muitíssimo interessante, criando personagens que podiam perfeitamente ter saído da mente da Agatha Christie. Mas falta sempre qualquer coisa.

Por exemplo, no terceiro livro de Sophie Hannah, O Mistério dos 3 Quartos, embora a premissa inicial seja completamente Agatha Christie, a execução, e a maneira de resolver o mistério, as pistas e a lógica deixaram um pouco a desejar.

Mas mesmo assim, errar é humano, e a própria Agatha Christie tem histórias das quais eu não gosto.

 

A lenda de Hercule Poirot continua.

E Sophie Hannah é uma sucessora de facto digna, da herança de Agatha Christie.

 

Por hoje é tudo pessoal, até à próxima!

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