Livro: O Conto da Criada

Uma obra sobre a qual não queremos que se concretize no futuro. Mas isso só depende de todos nós.

Inês:

Bem. Tinha ouvido falar muito do livro. E tinha ouvido falar muito bem. E essa gente toda sabia o que estava a dizer, o livro é brilhante.

Cria um mundo aterrorizante, e apresenta-o pouco a pouco, para que não tenhamos ilusões: as coisas podem sempre piorar.

Acho que o que mais gosto é o facto, apesar de ser um futuro improvável, não é completamente impossível. As motivações são baseadas em eventos que já ocorreram, e a forma como o poder foi tomado, aos poucos, é extremamente realista.

Não me vou alongar, porque acho que é um livro que cada um deve experienciar por si próprio, ainda que não seja uma leitura propriamente leve.

Gostava só de comentar o final do livro – as notas históricas. Acho que já muita gente comentou o facto de seguirmos as opiniões de um orador homem – com razão, porque tendo em conta todos os temas do livro, isso não foi coincidência nenhuma – e eu não vou ser exceção. Mas não me vou focar tanto no sexismo (machismo?) subjacente aos comentários “humorísticos” do Professor Pieixoto. Caramba, tenho de confessar, adoro este nome.

Em vez disso quero comentar acerca daquilo que o professor foca, profissionalmente, e que eu acho que serve como comentário tanto relativamente à posição mais facilitada (privilegiada, talvez? Não conheço a vida do senhor, mas é um académico, se calhar não está muito mal) que ele, enquanto homem, ainda detém, e que afeta o distanciamento que sente em relação ao relato da Offred, como de comentário relativamente à sobranceria dos académicos, particularmente historiadores que provém de contextos fundamentalmente diferentes daqueles que estudam, relativamente a documentos e relatos históricos.

E tudo isto se condensa num único ponto fulcral: a Offred não lhe interessa. Ele nunca diz que ela inventou os horrores porque passou – embora questione como é que ela foi capaz de os contar, o que, indirectamente, põe em causa a credibilidade dela, mas enfim -, mas nem uma vez os menciona. Nem a identidade dela lhe interessa, o seu simples nome. Ele tem razão num ponto, é muito difícil encontrar registos desse tempo, e a probabilidade da Offred ter usado pseudónimos é alta. E permitam-me a mim acrescentar uma opinião, acho que poderia ser encarado como falta de respeito dar-lhe um nome aleatório, quando a morte da sua identidade foi um ponto tão importante da sua história.

Em vez disto, em que é que o professor, e, pelos vistos, a sua audiência, estão muitíssimo interessados? Qual é A coisa essencial de ser descoberta? Quem é, atrevo-me a alvitrar, o verdadeiro protagonista da história?! (Esta última foi sarcástica, só para o caso de ter sido muito subtil).

Ora, nem mais nem menos, que o Comandante da Offred. E chega mesmo perto de descobrir a sua identidade. Os meus parabéns.

E é aqui que eu vejo o comentário: o comentário da distância do professor em relação à Offred – não quer saber dela, apesar do seu relato ser uma das poucas experiências pessoais que conseguiram sobreviver ao período de Gilead, escolhendo em vez disso focar-se nos homens à sua volta, particularmente no seu Comandante, no seu dono, essencialmente. Como se a identidade do comandante fosse a questão mais importante. E para o professor talvez seja importante. Saber quem detinha o poder talvez lhe pareça ser a questão mais importante. Ou talvez isso se deva ao facto da identidade do Comandante ser a coisa menos difícil de confirmar.

E temos ainda o comentário relativo aos historiadores. Para quem não é ligeiramente obcecado com história e mitologia como eu sou, ficam desde já a saber: a esmagadora a maioria dos “factos” históricos são pura especulação. Não só porque não existem registos fiáveis (muitas vezes acontece, é verdade), mas porque esses registos foram sobretudo destruídos durante os séculos XIII e XIX. Estão a ver estátuas egípcias? Estão a ver, tipo, a Esfinge, por exemplo? Sabem o que é que a Esfinge tem em comum com muitas outras estátuas do Antigo Egipto? Não tem nariz (façam as vossas piadas sobre o Voldemort, porque o assunto aqui é sério). Mas sabem porque é que não têm nariz? (Não, não há Horcruxes, essa piada devia ter sido feita na pergunta anterior). No caso da Esfinge, provavelmente erosão, a estátua é enorme, e o nariz é uma parte saliente, faz sentido. Mas a erosão pode ter tido uma ajudinha, uma vez que muitos “””arqueólogos””” partiram os narizes das estátuas que encontravam enquanto roubavam túmulos. Não existe uma ponta de exagero naquilo que acabaram de ler.  “Mas porque raio é que eles fariam isso? Uma estátua inteira não iria valer mais dinheiro??”, perguntam vocês, pessoas normais. Bem, resumidamente, os arqueólogos eram na sua maioria Ingleses de nariz empinado (pronto, talvez haja espaço para uma piada), que desenvolveram um fetiche pela cultura do Antigo Egipto, mas não gostavam particularmente do facto dos Egípcios não serem caucasianos. Por isso eles vandalizavam todas as estátuas evidentemente pertencentes a pessoas negras que encontravam. Muitas eram pintadas de ouro, era relativamente fácil “disfarçar”.

E é isto que acho que pode ser, ainda que indirectamente, um comentário relativo aos académicos, mesmo dos dias de hoje. Sobretudo a malta das Ciências Sociais, temos uma certa tendência para medir o mundo só de acordo com os nossos parâmetros. O professor parece ignorar não só as opiniões nascidas de um relato visceral dos horrores de Gilead, como também as consequências que isso teve para quem sofreu sob esse regime. E os restantes professores mencionados, os estudiosos de Gilead; não os ouvimos falar, mas os títulos dos sues trabalhos são todos…distantes. Como se Gilead se tratasse de uma curiosidade, e não de uma época horrível.

E este distanciamento, apesar de compreensível, deveria ser inaceitável. Quando os desastres acontecem, devem ser estudados, sim, é importante perceber como é que aquilo aconteceu. Sobretudo se queremos impedir que aconteça novamente. Mas não nos podemos afastar. A história tem tendência a repetir-se. Para o melhor, e para o pior. Para além de procurarmos compreendê-la, verdadeiramente, não nos podemos dar ao luxo de esquecê-la, nem de apagá-la; por mais dolorosa que possa ser. Se ignoramos os nossos erros, nunca vamos aprender com eles. E há lições que não nos podemos dar ao luxo de ignorar.

Helena:

Vamos primeiro ter em atenção que apesar de a primeira publicação desta obra ter sido em 1985, baseada num futuro que não aconteceu mas que poderá muito bem acontecer, só agora esteve um estrondoso sucesso devido à série baseada e adaptada (que amo e eventualmente também será aqui falada numa futura publicação).

Num mundo onde as consequências ambientais acontecem e a população diminui a um ritmo assustador devido às baixas taxas de natalidade, uma religião (extremista) toma posse de uma das maiores potencias mundiais: Estados Unidos da América. E faz isso como? Através do medo que as pessoas têm de a sua segurança estar em causa e assim, estas aceitam quem oferece protecção. Gradualmente, de forma quase imperceptível, novas leis foram impostas e novas proibições toleradas para o bem-estar de todos.

“Melhor, nunca significa melhor para todos. Significa sempre pior, para alguns.”

Referido isto, há uma espécie de déjà vu. Ou não? Não houve assim nenhuma memória histórica? Se não houve, bem, fico um pouco preocupada… muito preocupada.

Todos os acontecimentos que decorrem são contados por uma das Criadas, mas não são uns quaisquer. Offred escolhe os que considera importantes que poderão determinar o seu futuro e o das suas “irmãs”, como também aqueles a que ela determina como importantes para si. Uma noite chuvosa poderá ser um momento poderoso dependendo da emoção que nos provoca, ou se nos ajuda a tomar alguma decisão. É tudo contado como se o leitor fosse um amigo imaginário ou como se esta falasse sozinha na sua mente, pois Offred está sozinha e só poderá contar consigo independentemente de saber exactamente o seu fim no meio de uma história sem fim.

O que faz é um jogo perigoso, saber onde pisar, onde puxar os limites e quando voltar atrás. Em Gilead nada é de graça, nenhum movimento, comportamento ou frase é feito ou dito sem quaisquer efeitos laterais. Tudo tem um preço. E Offred, arrisca-se com o Comandante da casa onde foi designada sabendo do passado que a mesma guarda.

Esta obra poderá ser analisada através de diferentes disciplinas… e seria espectacular abordar através das Ciências Sociais (como a Inês à pouco referiu), mas isso daria para um artigo de diversas páginas… (uma ideia a considerar!!!) Porém é gritante, o retrocesso que existe na história do feminismo dos direitos das mulheres e dos direitos humanos.

Um pequeno pensamento para quem leu o livro ou vai ler: é impressionante ao que o ser humano se consegue habituar.

Deixar uma resposta