Look Away: O Mérito de uma Cena de Bullying

Aqui há uns tempos vi um filme chamado Look Away. Um filme de terror pequeno e pouco conhecido. A história é muito interessante – uma rapariga com problemas de auto-estima começa a falar com o seu reflexo no espelho. Serão alucinações, ou algo sobrenatural? Ou ambos?! A premissa é muitíssimo interessante, mas a execução para mim falhou. Começa muito bom, intrigante, e com os acontecimentos a seguirem-se rapidamente. Mas começa a dispersar-se um pouco, e o final pareceu-me muito apressado.

Mas há uma cena, aliás, várias, mas quero focar uma em particular, que é um exemplo fantástico de bullying. Há 500 filmes sobre o bullying especificamente, que em 90 minutos não conseguem nem um terço da qualidade e precisão desta cena. Desde o início do filme que assistimos a várias micro agressões (e agressões mais explícitas) à personagem principal, tanto por parte do gajo que anda sempre a implicar com ela (ao ponto de esperar de propósito que ela chegue ao autocarro, por exemplo), como por parte da sua melhor (e única) “amiga”, que é um exemplo perfeito de uma amizade tóxica.

A cena em questão prende-se com o baile de finalistas, para o qual toda a gente deve levar patins de gelo (porque o filme acontece numa zona super fria…Canadá talvez? Não me lembro). A nossa personagem principal, depois de várias conversas com o seu reflexo, decidiu ir ao baile, e pediu à sua amiga para a ensinar a patinar. A amiga acaba por deixá-la a cair no gelo enquanto se exibe, mas a questão aqui não é essa.

A personagem principal chega ao ringue do baile, e começa a dançar/patinar com o namorado da sua amiga, que se mostrou simpático para com ela, mesmo achando que ela era muito estranha e demasiado apegada à sua namorada. A amiga em questão, como seria de prever, não achou graça nenhuma à situação, e puxou o namorado de rompante para perto dela, fazendo com que a personagem principal caísse estatelada no meio do gelo.

Aproxima-se então o gajo que a tem andado a incomodar, e oferece-lhe a sua mão, como que para a ajudar a levantar-se.

Agora. Se forem como eu, que aturei muita coisa nos meus tempos de escola, isto é uma bandeira vermelha, com néon lá colado a dizer !!AVISO!! PERIGO!! Mas a rapariguinha, coitadinha, é demasiado ingénua, e aceita a mão do gajo.

E o que é que acontece? Pois é claro, ele agarra-a pelo pulso, e começa a arrastá-la pelo ringue todo. E é esta parte da cena que eu acho que está extremamente bem feita. Ele arrasta a rapariga à frente de toda a gente, passando por todos os alunos. E temos os amigos do gajo, que estão mortos de riso, e mais umas pessoas que também se riem. Mas a maioria não se ri. A maioria fica ali especada, a olhar, com a boca aberta. Só a olhar. Alguns a olhar de forma reprovadora, mas só se ouviam, muito de vez em quando, umas duas vozes, a perguntar “mas ninguém a ajuda?” “mas ninguém o pára?”.

E porque é que esta cena é muito bem feita, perguntam vocês?

Porque a esmagadora maioria de situações de bullying passam-se assim. Com um ou dois marmanjos (ou marmanjas, porque eu sei bem o que passei no lombo…) a fazerem mal a uma pessoa; um grupo de pajens e/ou aias que fazem de coro a observar a situação e a divertirem-se; um grupo maior, que vê a situação a desenrolar-se, mas não faz nada porque não tem capital empatado na situação; e umas duas ou três alminhas que desaprovam abertamente da situação, mas que se mexem tanto como os anteriores.

No meio desta confusão de filme, esta cena vale a pena ser falada, porque é um exemplo, atrevo-me a dizer, perfeito, de todas as partes envolvidas em situações de bullying.

 

Por hoje é tudo, beijinhos e até à próxima!

 

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