Livro vs. Filme: A Casa dos Espíritos

Aqui está o duelo do livro que abordamos no Clube do Livro  com o filme homónimo baseado na obra de Allende. Gostaríamos de saber a vossa opinião!

Inês:

Mais um filme que vi antes de ler o livro, e mais um filme que acho que não é melhor do que o livro. Mas desta vez, concordo em absoluto com as mudanças feitas.

O livro atravessa gerações e famílias, que se cruzam e entrecruzam, e uma adaptação à letra seria mais longa do que toda a trilogia do Senhor dos Anéis! Mas para além do tempo, foram feitas mudanças às personagens que fazem sentido, sendo para mim a mais flagrante a de Rosa, a bela. No filme ela é apenas uma jovem, muito bonita e delicada, mas humana, ainda assim, sem nada de sobrenatural – desta vez foi Clara quem herdou todas essas qualidades. No livro, Rosa era um ser etéreo, cujas descrições alternavam entre o angélico e o aquático, devido ao seu cabelo verde. Sim, verde, no filme é tudo loiro e acabou-se.

Concordo também com a mudança em termos da narrativa, cortar certas personagens, e por aí, porque assim evita-se um prolongamento desnecessário da história. Também acho que fez sentido, tendo em conta que cortaram a maioria da história da filha de Clara, deram-lhe assim a história que no livro pertencia à sua filha, que acaba o filme como uma criança pequena, em vez de uma jovem adulta.

Percebo que a história seja condensada a passar-se só na herdade das Trés Marias, uma vez que andar constantemente a mudar de local para local seria mais complicado de filmar. Contudo, não posso deixar de apontar que acho engraçado que, de todas as histórias complicadas e estrabólicas, sobretudo as relacionadas com os poderes da Clara, tenham decidido manter a da cabeça da mãe dela. Acho interessante a escolha, é só.

Continuo a detestar o velho Estebán Trueba, por mais que ambas as histórias insistam em tentar fazer com que tenha pena dele. Sim sim, ele “pagou” os seus pecados ao perder as únicas pessoas que amava de várias formas, mas chamem-me parva, porque eu não consigo perceber porque é que outra pessoa tem que pagar pelas porcarias que ele fez?! “Mas está aí a tragédia”, quero lá saber! Se o Trueba fez a cama e a encheu de pregos, ele que se deite nela! Não a filha, nem outra pessoa qualquer!

Talvez por ter sido mais explorada, mas gostei mais da relação entre o Trueba e a Tránsito Soto no livro – embora ninguém me vá ouvir reclamar dela não ser uma prostituta adolescente no filme, mais uma mudança que tem todo o meu apoio – porque ele parecia apoiá-la mais, respeitá-la mais, chegando mesmo ao ponto de a comparar consigo mesmo, pensando que eram parecidos e ambiciosos, apenas em direções diferentes. O dinheiro, por exemplo, não foi um problema para o Trueba quando Tránsito lho pediu, assim que ele soube para o que era, concordou, só pela graça de lhe atiçar a ambição.

Continuando nas ligações ao Trueba, a mãe dele no livro é uma velha extremamente doente e debilitada, mas que demonstra ser boa pessoa, e ter noção da sua condição e dos incómodos que causava aos filhos, sobretudo à filha. No filme, ela parece simplesmente…arrogante sem ter motivos para isso? Foi estranho.

Tanto a mãe, como a irmã de Trueba – Férula, juntamente com a ama da Clara e o Pedro Segundo sofrem do mesmo mal: personagens tão importantes que não podiam de maneira nenhuma ser omitidas, mas que sofreram grandes cortes, sobretudo no que respeita aos seus diálogos internos, às suas motivações e opiniões. Ainda que isto não os torne em “más” personagens, aquelas que recebem um desenvolvimento, recebem-no de uma forma algo brusca, quando o recebem de todo. O que é uma pena, pois são personagens, se bem que secundárias, fascinantes.

Vou concluir com uma coisa que me irritou, tanto no livro como no filme: o bastardo do Trueba, o Estebán Júnior. Júnior, porque no livro ele é neto do velho Trueba, e da irmã do Pedro Segundo García, mas no filme, a rapariga que o velho Estebán viola é só mais uma trabalhadora. E no filme, por incrível que pareça, a passagem do tempo é mais confusa do que no livro, onde existem imensas gerações interligadas entre si – porque o Estebán júnior, embora sendo mais velho do que a Blanca, não é velho o suficiente? O velho atacou a mãe dele pouco depois da morte da Rosa, e quando casa com Clara ela já é uma mulher, mas o Júnior é ainda uma criança quando a mãe dele lhe bate à porta? É confuso, pronto.

Mas indo diretamente às irritações: O ESTUPOR DO JÚNIOR NÃO PAGA PELO MAL QUE FEZ A NINGUÉM, E ELE DEVIA PELO MENOS TER ACABADO, SEI LÁ!, APUNHALADO PELAS COSTAS E DEIXADO A MORRER SOZINHO, OU ENTÃO SOFRER O MESMO QUE FEZ À CLARA, PRONTO JÁ DISSE!

Agora que já me zanguei, vou acabar isto a dizer que a lista de diferenças é incrivelmente incompleta, por duas razões: não são assim tão importantes no contexto alargado do decorrer da história, e porque de cada vez que achava que tinha terminado de escrever me lembrava de outra coisa. Portanto, decidi ficar por aqui.

Helena:

Um filme da colheita de 1993… belo ano 😉 E ainda por cima filmado em Portugal (corrijam se estiver enganada).

É um prazer ver o Antonio Banderas… 🙂 e a Cruela Devil. Agora, apartes de lado. O que é que eu posso falar depois de tudo o que a Inês já disse????

Para além das diferenças óbvias que a Inês referiu, na minha opinião falta algo mais. O filme é bom, o livro é bastante melhor como óbvio, mas falta-lhe muita coisa que está no livro. Sei que seria impossível incluir tudo no filme… mas no meu ponto de vista não existe ligação entre diferentes acontecimentos. Se por acaso tivesse visto o filme primeiro iria achar um pouco incoerente a história decorrer com uma rapidez enorme (eu sei que sim, nos filmes actuais TUDO É RÁPIDO) devido à quantidade inumerável de acontecimentos e de pequenos pormenores que são importantes. É uma pena não terem explorado mais personagens e a relação entre elas, o que iria fazer com que tudo fizesse ainda mais sentido!

Compreendo porque é que escolheram a cena em que Clara encontra a cabeça da mãe… e adorei terem de todos os acontecimentos místicos de Clara, terem escolhido esse. Não sei porque é que Barabás não aparece nem uma vez no filme, até porque aparece numa cena importante do início da história de amor??? de Clara e Esteban.

Eu sei, eu sei, que o filme é de 93, porém, poderia ter melhorado a parte do envelhecimento das personagens… porque sinceramente. Sinceramente!!!

E embora o filme gire grande parte em torno de Esteban, o lugar feminino continua a ser superior e isso observa-se, ou melhor, ouve-se através da narração de Blanca durante o filme.

Ao contrário da Inês, não vou estar para aqui com “porque é que ele não foi castigado?”… a vida foi, era e é assim, e infelizmente continuará a sê-lo. Aqueles que cometem atrocidades, em especial em países que estão numa crise gigantesca política e humanitária, não serão castigados pelos seus actos. Mesmo depois da II Guerra Mundial, nem todos chegaram aos bancos dos tribunais ou morreram durante a guerra. A vida consegue ser, de certa forma, cruel.

Helena és tão pessimista!!! – pensam vocês… eu chamo a isso ser realista.

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