Clube do Livro: A Casa dos Espíritos

A Casa dos Espíritos é provavelmente a história mais conhecida de Isabel Allende, nem que seja só pelo título.

Acompanhamos várias gerações de duas famílias, que acabam por se unir numa só, e cujas mudanças e contratempos espelham as mudanças e revoluções da América Latina. Com um ênfase nas personagens femininas e no sobrenatural, seguimos a vida de Clara Trueba, passando pela sua infância de mudez embruxada, até ao seu eventual casamento com Esteban Trueba, passando pela sua relação com a sua cunhada e os seus filhos, e todos os artistas e indigentes que amadrinhou ao longo da sua vida.

Uma história que chega ao público pela mão da própria Clara, que escrevia tudo o que considerava importante desde que era uma criança, temos um relato onde a crua realidade se mistura com um misticismo omnipresente no quotidiano das personagens, onde a natureza e os antepassados procuram ajudar e guiar as personagens; mas é da natureza humana trilhar o seu próprio caminho, por mais doloroso que seja.

 

Inês:

Em mais um caso de ter visto o filme antes de ler o livro, temos mais um caso em que o livro continua a ser melhor que o filme.

Percebo porque é que as alterações foram feitas, o livro tem IMENSAS personagens, um file completamente fiel iria ser maior que a trilogia do Senhor dos Anéis!

Mas acerca do livro ele próprio: é claro que o adorei! A Isabel Allende é uma das minhas escritoras favoritas de todos os tempos! Dito isto, assumo que tendo a gostar mais dos seus trabalhos mais recentes (que é como quem diz, aqueles que não são os primeiros, e já vão perceber porquê). A Isabel Allende tem tendência a escrever um estilo que eu AMO absolutamente – realismo fantástico, onde temos um contexto perfeitamente normal e realista, em tudo parecido ao nosso contexto real, mas ao mesmo tempo existe magia, ou indícios dela, e ainda que a maioria das personagens não acredite que tal existe, acabam por ser influenciados, e a magia acaba por ser parte da natureza e do mundo, no final das contas.

Ainda assim, as histórias iniciais da Isabel Allende tinham uma ênfase em aspectos sexuais que não gosto de ler, aliás, não gosto de me expor a eles por princípio: agressões sexuais. Sobretudo de homens para com mulheres. E o que me irrita, é que normalmente os homens que cometem essas agressões raramente são punidos. Sim, seria a coisa realista de acontecer, o criminoso ficar impune, mas temos fantasmas e mesas a flutuar, é pedir demasiado que o karma exista também?? Mas nas últimas obras publicadas, pelo menos naquelas que li, este aspecto não costuma estar presente, tirando para referenciar medo ou eventuais ameaças.

E, no entanto, eu percebo, no caso do velho Esteban, ele não foi punido directamente, mas sim indirectamente, ao perder e ver magoadas as (muito poucas) pessoas que algum dia amou. Mas pôrra, não acho bem, o que é que querem?

Passando para coisas mais positivas, não posso deixar de louvar a habilidade da Isabel Allende de criar e manter um número tão elevado de personagens! Temos várias gerações, de várias famílias, que acabam por tropeçar umas nas outras, e escrever isto teve de ser impossível sem que ela tivesse uma lista, ou uma árvore genealógica de quem era quem, e com quem era aparentado. Eu dava em doida se tentasse escrever isto sem uma ajuda dessas.

Nota-se desde cedo a importância que ela coloca nas personagens femininas, e o quão bem ela as escreve: de uma forma profundamente humana, com falhas e defeitos, mas com uma força subjacente, que cada uma exibe de acordo com a sua personalidade. As personagens masculinas também estão muito bem escritas, desde aquelas com que é suposto simpatizarmos, às simplesmente odiosas, mas aquela força subjacente…está menos presente. Talvez porque está muito implícito (ou por vezes bastante explícito) que não têm necessidade de a utilizar. Ou talvez porque acabam por ser personagens secundárias nas suas próprias histórias, como as mulheres o foram durante tanto tempo, ainda para mais num contexto como aquele que é a América do Sul rural, ainda hoje, nalguns sítios. Até em países menos ao Sul isso acontece…

Vou concluir ao apontar uma…técnica? Um estilo? Uma preferência? Uma coisa destas, que a Isabel Allende muitas vezes tem nas suas histórias: a narradora que está a compilar uma história contada por outros, ou acerca deles próprios, ou acerca de terceiros. Vemos isto na “Casa dos Espíritos”, vemos isto em “Inês da Minha Alma”, e uma personagem da trilogia da Águia e do Jaguar faz o mesmo com as aventuras que lemos ao longo desses livros, compilando a história que viveu. E juro que não sei porquê, mas é uma coisa que eu adoro! Talvez por estar pouco habituada, e ser refrescante ler desse modo? Talvez por sentir que torna a história mais visceral, mas humana, mais real? Não sei. Talvez por tudo isto. Este continua a ser uma história imortal, tal como o espírito de Clara Trueba, a manifestação ao mesmo tempo corpórea e irreal do misticismo de Isabel Allende.

 

Helena:

É o segundo livro de Isabel Allende que leio e sendo este a sua primeira obra, não é em nada inferior aos outros (okay eu só li um antes deste, mas planeio ler todas as suas obras literárias). A forma como a autora descreve as personagens, em especial as femininas, é sublime, suave e simultaneamente firme, dando-nos a conhecer não só as suas virtudes como defeitos. E apesar de concordar com a Inês em relação à grande dedicação que Allende teve perante todos os personagens femininos, na minha opinião Esteban Trueba é uma das personagens mais poderosas e imponentes na história (não por ser homem, mas sim pela sua personalidade fincada, atitudes e comportamentos), não ficando atrás de Clara, a sua esposa, (que é a minha personagem preferida… se bem que, se eu convivesse com ela 24h sobre 24h na sua juventude provavelmente daria em louca!!).

Haverá porventura quem simpatize com Esteban Trueba, talvez devido à sua grande necessidade de ser amado pela única pessoa que nunca o amou tal como ele a amou fervorosamente, outros irão simpatizar com ele pela sua persistência e trabalho árduo; e infelizmente ainda haverá quem goste dele pela sua percepção de homem com H que têm… a Humanidade lamenta essas criaturas. O ponto onde quero chegar é: apesar da sua grande necessidade de amor, da sua grande persistência e trabalho árduo, tal não o transforma num bom homem, numa boa pessoa. Como a comediante Sara Millican disse uma vez num dos seus espectáculos: uma boa pessoa não se torna má por ter apenas uma má atitude (acho que vão todos concordar comigo que isso não acontece quando se trata de homicídio) e uma atitude boa de uma pessoa má não a torna numa boa pessoa. Possivelmente alguns de vocês estão a pensar que tenho de ter em atenção a época em que Esteban nasceu e o ambiente em que foi educado e tudo o mais (sim, meus filhos, eu sei… sou Socióloga… ), mas também estão a esquecer-se que nem todos os homens que nasceram naquela época e quisá tiveram de crescer num ambiente semelhante a Esteban sentiram a necessidade de fazer o que ele fez (e aqui estou a referir especificamente à violência e à violação).

E Clara Trueba, eu poderia aqui escrever uma dissertação sobre esta magnífica, estranha e mística mulher… mas não o vou fazer; talvez guarde isso para outro dia muahahahahhaha!!!

Poderia alongar-me mais perante o livro, mas a Inês basicamente já disse tudo!!! Fiquem agora à espera da rubrica “Livro vs. Filme”… teremos mais conversa sobre este excelente livro, que todos deveriam ler.

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