I, Tonya

Um filme baseado em entrevistas de Tonya, LaVona, Diane, Jeff e Shawn.

Tonya provou o seu talento aos quatro anos de idade ganhando a sua primeira competição. Foi a segunda mulher e a primeira americana a realizar um triplo axel na patinagem no gelo. Porém não foi só por isso que ficou conhecida… aos vinte e três anos de idade, vai tudo por água abaixo. E da mais amada mulher da América, torna-se na mais odiada.

 

Inês:

Mais um filme biográfico, que se calhar não teria visto se não fosse pelo blogue. Provavelmente veria este antes do filme sobre o Winston Churchill, só pelo simples facto de saber que este contava com a Margot Robbie no elenco; também não gostei do Suicide Squad, mas ela é uma atriz excelente, e este filme só veio consolidar este talento.

Curiosamente, ao contrário do Darkest Hour, o que mais me atraiu neste filme não foi a história em si, embora tenha dado por mim bastante envolvida em tudo o que se passava, mas sim a forma como essa história era contada. As mudanças entre o estilo documentário e o filme clássico, e particularmente os momentos em que as personagens quebravam a proverbial “fourth wall”, essa barreira invisível que, em teoria, impede as personagens de falarem diretamente com a audiência, que cria uma distância entre a história e quem está a assistir; essas foram as partes de que mais gostei.

Por norma gosto de quebras desta regra, mas gosto particularmente delas no contexto desta história: desde o início que não temos uma história feliz: as pessoas mais importantes para a personagem principal estão sempre a agredi-la, sobretudo fisicamente; e por mais do que uma vez, temos a personagem, imediatamente após ter sido agredida, a falar connosco, a olhar diretamente para nós.

Os filmes em geral, mas os dramas em particular, fazem-me sempre sentir um bocado voyeur, estar sentada a assistir às desgraças de outra pessoa, sinto-me desconfortável na maioria das vezes. Mas assumo que, tendo em conta as sensibilidades de cada um, este sentimento seja uma consequência natural de se sentir empatia pelas personagens em questão.

E é por isto que eu ADORO as escolhas deste filme: usam e abusam deste voyeurismo. Ao falarem directamente connosco, ou simplesmente olharem directamente para a câmara – para nós – é como se nos estivessem a chamar a atenção indirectamente; fazem de propósito para que as personagens olhem para nós só um bocadinho mais do que seria necessário, só o suficiente para que se torne desconfortável. E mais desconfortável se torna quando contrapomos esses olhares, essa ousadia das personagens, esse confronto, com as partes de documentário; no estilo em que é suposto termos as personagens a “interagir” com a audiência, temos momentos mais impessoais, mais distantes, do que aqueles em que não é suposto estarmos presentes.

Caramba, acho que é o primeiro filme desde que começámos esta série em que as personagens não são a minha parte favorita!

O que não significa que as performances não sejam excelentes – Paul Walter Houser (Shawn, o “guarda-costas” de Tonya) em particular surpreendeu-me bastante, porque capturou até aos mais ínfimos detalhes, todos os maneirismos daquele amigo da onça. Sinceramente, eu não vou exagerar nem ironizar nada do que estou prestes a dizer, mas o homem tinha (pelo menos) um delírio cavalar em cima! Eu recuso-me a falar com detalhe sobre esta personagem, ou qualquer uma delas, na verdade, em detalhe, porque senão nunca mais saio daqui, e a Helena ainda me ameaça por causa do tamanho do post sobre o filme Colossal.

Para concluir, digo apenas: ainda bem que vi este filme. Não é uma história com um começo fácil e feliz, mas gosto de encarar o final como sendo optimista.

 

Helena:

Tonya, não sei se teria a mesma coragem que tiveste!

Tonya provou o seu talento em idade precoce, mas a sua vida não foi um mar de rosas. Abandonou a escola para se dedicar completamente à patinagem, o que por si só condicionou parte do seu futuro. Para fugir das agressões físicas da mãe casou-se com Jeff (eram dois adolescentes); saiu da toca do lobo para se colocar na boca de outro. Na minha opinião, se ela não se tivesse casado com o trastezinho do Jeff poderia ter tido uma boa carreira enquanto patinadora.

LaVona, mãe de Tonya, é (torna-se difícil falar das personagens deste filme!)… bem em primeiro lugar não se pode chamar de mãe àquela pessoa. Ela não é mãe, apenas pariu. E parir todas (as que conseguem engravidar) conseguem. Não me vou demorar mais nesta criatura.

Acredito que a toxicidade da mãe tornou Tonya numa mulher que está sempre na defensiva. Durante o filme, podemos observar que ela não tem uma personalidade fácil, especialmente quando está zangada…

O trastezinho do Jeff não passa de outro agressor parvo o suficiente para ser “amigo” de Shawn. Shawn é aqui a personagem mais… só me apetece vomitar uma verborreia de nomes extremamente desagradáveis mas que apenas traduzem o que ele é na realidade. O IDIOTA FOI A RAZÃO PELA QUAL A CARREIRA DE TONYA FOI DESTRUÍDA COM UMA BOMBA NUCLEAR.

Uma coisa que me espantou (pela negativa) foram os júris. Já assisti ao caso das atletas serem desqualificadas ou retirarem-lhes pontos por se conseguir ver a alça do soutien (como se fosse uma coisa do outro mundo… são mulheres, têm mamas!), por isso não sei porque me espantei assim tanto, mas o facto é que a apresentação das patinadoras pode retirar-lhes pontos, mesmo que estas tenham uma performance incrível. O que não justo, Tonya no início da sua carreira não tinha dinheiro para comprar aqueles fatos bonitos e era uma patinadora incrível. Também é notório o quão Tonya parece, em termos físicos, não pertencer à elite patinadora: todas as outras patinadoras têm aquela aparência de fragilidade.

Nota: Quando virem o filme e começarem a passar os créditos, por favor não desliguem! Continuem a ver até aparecer minúsculos trechos das entrevistas. As parecenças com o actor Paul Walter Hauser e o idiota do Shawn são espectaculares. Dou os meus parabéns ao actor Paul por se tornar numa espécie de irmão gémeo de Shawn para o filme.

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