Lady Bird

Christine McPherson ou como insiste em ser chamada, Lady Bird está no último ano do ensino secundário numa escola católica e tudo o que deseja é que a sua vida se torne mais emocionante; para isso, quer entrar em uma universidade fora de Sacramento, isto contra a vontade da sua mãe.

Enquanto espera pelos resultados da sua candidatura a algumas universidades, faz o que é habitual das adolescentes… paixões e desilusões.

 

Inês:

Este é um dos meus favoritos (e um dos primeiros que vi). As críticas em geral que tinha ouvido sobre o filme giravam todas à volta do mesmo assunto: é melhor do que se espera. E eu, como sou uma pessoa otimista, decidi dar uma chance ao filme. E concordo absolutamente com as críticas que ouvi.

Pelo menos dos nomeados que vi até agora, este parece-me ser o mais “low profile”, aquele que tem a história mais comum, talvez. E eu não tenho problema nenhum com isso. É a clássica história de “coming of age”, com uma ligeira diferença: o mundo não encaixou num eixo perfeito no final do filme.

Admito, a importância do facto da personagem principal ser aluna numa escola católica perde muito significado – literalmente ao ponto de isso não significar nada para mim – quando o retiramos do contexto dos Estados Unidos; mas a cena em que elas comem hóstias como se não houvesse amanhã fez-me rir, confesso.

Tal como muitos dos filmes que considero que valem a pena ver, o que carrega a história deste são as personagens, e as relações entre elas, que são tão profundamente humanas, que me senti por vezes desconfortável com o quão parecidas eram a situações que vi, ou que vivi há uns anos atrás.

Por falar nuns anos atrás, deixem-me falar, defender, se quiserem, a personagem principal, Lady Bird. Ela é exagerada, teimosa que nem uma mula, dramática, bruta, e cronicamente insatisfeita com a vida que tem. Ela é adolescente, sejamos honestos. E acreditem em mim quando vos digo que fui provavelmente a adolescente mais chata que poderiam conhecer – pouco saía, não sentia necessidade de me rebelar, ou seja lá o que for que miúdos normais fazem nessa idade, e não me lembro de ter discussões por aí além. E ainda assim. Sou capaz de olhar para trás e ver alguém com um complexo de superioridade, que era dramática e teimosa que nem uma mula. A teimosia permanece, mas ei, progresso!

A Lady Bird sofre do mesmo problema que os típicos protagonistas de histórias “coming of age” – sente-se como o proverbial peixe grande num lago pequeno, a sua cidade de Sacramento e as pessoas mais próximas de si não são o suficiente. E tal como nas (boas) histórias deste tipo, ela cresce. Devagarinho, mas cresce.

Gosto do facto do filme não esconder as cabeçadas que ela dá, todas as parvoíces e coisas estúpidas que lhe passam pela cabeça – e que ela faz, porque ela não tem controlo sobre os impulsos, raio da rapariga! E gosto sobretudo de ela ser capaz de admitir que errou, e ser capaz de pedir desculpa às pessoas que magoou.

Voltando a falar das personagens, devo admitir que me surpreendeu o modo como o filme retratou as personagens “estúpidas”, e pouco recomendáveis, nomeadamente o último namorado da Lady Bird e os seus amigos. Claro, são todos idiotas que se acham melhores que os outros; mas o filme não nos massacra com a ideia de que estas pessoas nunca vão mudar. Quer dizer, a personagem principal juntou-se a eles, sobretudo porque invejava algo neles, e conseguiu perceber que estava errada; enquanto há vida há esperança, certo?

Antes de concluir, quero só falar da parte mais divisiva do filme, pelo que ouvi dizer, e que compreendo perfeitamente que assim seja: a relação da Lady Bird com a sua mãe (com a sua família em geral, mas com a mãe em particular).

Por mais irritante, desconfortável, e desnecessariamente má que seja por vezes, eu respeito a maneira como escolheram retratar esta relação, porque me parece tão profundamente humana. Elas são as duas iguais, mas escolhem focar as suas energias em coisas diferentes, com a Lady Bird a exibir um idealismo próprio da sua idade e experiências de vida, e a sua mãe a puxar para um realismo cru e necessário, em função das mesmas coisas.

Acreditem que também me irritou profundamente o facto de nenhuma delas querer ceder ao orgulho, e ter que ser o coitado do pai a tentar (re)mediar a situação, mas…ao mesmo tempo respeito imenso essa escolha? Um final feliz típico teria sido muito mais satisfatório (TÃO mais satisfatório), mas ao mesmo tempo iria contra o realismo pelo qual o filme pautou até então. Tendo em conta o que vimos da evolução das personagens, faz sentido que nenhuma delas queira dar o braço a torcer, que se roam completamente por dentro, mas que se recusem a ceder.

Acho que, no final das contas, ajuda à mensagem geral do filme: as coisas não têm que ser perfeitas para acabarem bem. Vão haver entraves, vão haver obstáculos; raios, às vezes vão-te aparecer montanhas no caminho. Mas só porque por vezes temos que fazer desvios, isso não significa que não acabemos no caminho certo.

 

Margarida:

Mais uma vez, comecei a ver um filme em prol do blogue, sobre o qual não sabia nada. Já tinha ponderado vê-lo, mas nunca foi muito apelativo para mim, logo desde o início.

Admito que tem partes bastante interessantes e que a representação tão dramática que a rapariga, “Lady Bird” tem com a mãe é muito interessante e chega mesmo a ser cómica.

Então… Não foi o meu filme preferido, nem perto. Obviamente não é o típico filme em que tudo está bem, tudo acaba bem, todos estão felizes. É bastante realista e há que reconhecer que nem sempre tudo é um mar de rosas, mas eu gostava que a história em si tivesse tido um desfecho mais feliz. Mas sempre que algo estava mal, tomava proporções gigantescas por parte das personagens, sem necessidade disso. Chamem-me uma romântica, chamem-me o que quiserem mas não é o filme que voltarei a ver por gosto.

Penso que parte do meu desagrado se deve ao facto de não me rever nas personagens, tanto quanto estava á espera. O filme representa uma típica adolescente com todos os seus receios, sonhos e mudanças de humor diárias, mas para além disso achei a rapariga muito dramática ao ponto de inventar um nome para si própria, demasiado rebelde, demasiado respondona, demasiado armada em pessoa que sabe o que é melhor para si e não quer ouvir ninguém. Desculpem-me mas irritou-me a sua atitude! Acho que no fundo, por ela ser uma pessoa que só queria chamar a atenção, totalmente o meu oposto.

Em relação ás outras personagens, adorei o pai da rapariga, sempre disposto a ajudar, mesmo tendo todos aqueles problemas.

A mãe fazia uma tempestade num copo de água, mas tirando isso era uma típica mãe preocupada que faz tudo pela sua família.

Os idiotas dos ex-namorados da “Lady Bird”, um que a traiu, e o outro nunca foi honesto desde o princípio.

Embora não me tenha identificado nem empatizado devidamente com nenhuma das personagens, o filme tem alguns aspetos positivos…

Gostei da parte final, quando a personagem principal percebe que cresceu, que já não é uma adolescente inconsequente e agora tem responsabilidades. O ponto alto do filme para mim foi quando ela voltou á igreja, que lhe lembra a sua origem humilde em Sacramento, levando-me também a crer que no fundo ela acredita em Deus.

 

Helena:

“Outro filme sobre adolescência… (revirar de olhos)”.. bem, sim, é. Mas não exactamente como aqueles que estamos habituados a ver, onde os comportamentos idiotas são demasiado idiotas. Não sei se me fiz entender?!

Talvez a parte que seja mais notória deste filme seja a relação que Christine (sinceramente, apesar de compreender o porquê de ela querer ser chamada de Lady Bird… acho estúpido ser chamada de outro nome sem ser aquele que é nosso, a não ser que seja algum artista com um nome artístico… que não é o caso) tem com a mãe. Elas são parecidas não só visualmente (partilham o mesmo corte de cabelo, foi a primeira coisa que me chamou a atenção antes de começarem a discutir) como também a nível da sua personalidade: vincada. E é por isso que a sua relação é turbulenta, elas chocam por terem o mesmo feitio, mas com ideias e ideais opostos.

A mãe de Christine é directa, crua, realista… às vezes demasiado, o que sugere que seja uma pessoa um pouco amargurada com a vida. O que faz com que corte as asas aos sonhos da filha e a desencoraje. Prestem atenção à primeira cena em que elas estão no carro. Todos os sonhos e desejos de um futuro melhor são imediatamente cortados com obstáculos, e todas as soluções propostas para ultrapassar esses obstáculos são desencorajadas ao desacreditar nas capacidades da filha. Apesar disto tudo, a mãe de Christine ama-a e ela sabe-o.

A discussão mais marcante é sobre Christine querer estudar fora de Sacramento. Esta chega ao ponto de com a ajuda do seu pai, candidatar-se para Nova Iorque, às escondidas da sua mãe… “Queres sempre mais. Nunca chega o que te damos! Sabes quanto custa criar-te?” Estas frases foram para mim as mais marcantes na discussão, que acompanha todo o filme. “Então diz um número. Para eu trabalhar, pagar-te e depois nunca mais falar contigo.”, resposta de Christine … “Nunca conseguirás um trabalho que te pague muito.” Não é preciso dizer mais, pois não?

Christine é como todos os outros adolescentes. Por isso é normal o seu comportamento durante o filme. A típica atitude de “abandonar” a sua única e melhor amiga para tentar se integrar no grupo de amigos de um rapaz em que está interessada.

A desilusão que Christine teve com este rapaz (mais do que com o ex-namorado, até porque os dois ficaram amigos), serviu como uma base importante para crescer.

No final do filme para além de ter abandonado o nome Lady Bird, apercebe-se que estar em Sacramento não era tão mau comparado com a solidão que está a sentir em Nova Iorque (o que é normal quando saímos da nossa zona de conforto, em especial se sairmos de uma terra pequena para uma extremamente maior… no início estamos sozinhos). Por isso não seja de estranhar que vá ao que lhe é mais familiar, a uma Igreja.

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