Clube do Livro: Chocolate

Desde pequena que Vianne Rocher viaja ao sabor do vento com a sua mãe, sempre a fugir do Homem de Negro que surge nas cartas. Agora ela própria viaja com a sua filha, Anouk de seis anos. O vento de Carnaval levou-as à acanhada aldeia francesa Lansquenet-sur-Tannes, onde a tradição é seguida religiosamente e estranhos não são bem-vindos.

Mas Vianne não está preocupada com os olhares de desagrado que lhe deitam, sabe que não vão resistir à sua loja La Céleste Praline, recheada de deliciosos chocolates. Ao contrário da sua mãe, Vianne não utiliza a sua sabedoria sobre magia para descobrir os segredos das pessoas… utiliza-a para saber qual o chocolate preferido de cada pessoa.

Apesar de já começar a ter clientes e até amigos, existe um habitante da aldeia que não deseja que ela viva em Lansquenet-sur-Tannes. O jovem Padre Francis Reynaud prega nas missas sobre a má influência das novas habitantes e tenta fazer com que Vianne saia de Lansquenet-sur-Tannes.

Porém Vianne está cansada de viajar pelo mundo e recomeçar a vida vezes sem conta, ela quer estabilidade para a sua filha.

 

Margarida:

Devo dizer que devorei rapidamente este livro.  Uma leitura leve, com descrições de fazer crescer água na boca.

Devo dizer que simpatizei com as personagens, até com o padre Francis Reynaud, que no fundo apenas queria a aceitação das pessoas de Lanquesnet. Armande, a avozinha que toda a gente gostava de ter. Josephine, a mulher a quem faltava coragem para enfrentar o marido e que não sabia a força que tinha dentro de si. Guillaume o senhor que adorava animais (tal como eu!). E tantas outras personalidades que habitavam naquela pequena aldeia de Lanquesnet.

Ao longo do livro há sempre um toque de magia, aqui e ali, que nunca se desvanece. Por vezes temos a certeza que está lá, outras, achamos que foi apenas uma miragem. Quem já leu irá perceber a que me refiro, especialmente Pantoufle o amigo imaginário de Anouk. Era mesmo imaginário?

Em relação á mensagem, devo dizer que me tocou pessoalmente, uma vez que sou católica e estamos agora na quaresma… E durante a quaresma devemos fazer uma renúncia e a minha é não comer chocolate… (Por escolha própria, não me interpretem mal!) Irónico, no mínimo, não?

Para além de outros assuntos relevantes, como a discriminação ou violência doméstica este livro retrata muito bem a hipocrisia de algumas pessoas que vão á igreja. Há pessoas boas e más, pessoas bem e mal intencionadas, quer sejam religiosas ou não. Neste livro esta realidade é flagrante, uma vez que as pessoas se sentiam melhor na chocolataria de Vianne do que na igreja. Mais uma vez mostrou que não é por se fazer este sacrifício ou aquele que nos tornamos bons cristãos ou boas pessoas, mas sim ajudando quem precisa e fazendo o bem. Achei Vianne mais católica do que o padre…

Como já referi, a leitura fluiu desde o princípio, ainda que a parte final tenha levado mais tempo a desenvolver-se.

Contudo, acho que soube a pouco, queria saber o que se passou a seguir com as personagens, agora resta-me apenas imaginar…

 

Inês:

Ler isto durante a Páscoa não foi boa ideia…sempre que alguém começava a descrever e enumerar chocolates tinha vontade de morder o livro…

Brincadeiras à parte, este é um dos raros exemplos onde eu vi o filme antes de ler o livro. E por mais que goste do filme, ainda não é desta que digo que o livro não lhe chega aos calcanhares.

Percebo porque é que fizeram as alterações todas que fizeram no filme: é mais romântico. Não só no sentido de romance enquanto relações amorosas (se bem que toda a gente acaba por fazer casal, essencialmente), mas no sentido das pessoas de Lansquenet serem todas muito mais simpáticas. Até as personagens de quem não gostamos são TÃO mais fáceis de aturar no filme. Não me façam começar a falar do Muscat, por amor de Deus.

E é precisamente isso que me faz gostar mais do livro. As personagens são mais humanas. E temos um conhecimento mais profundo das relações que desenvolvem entre si.

Já para não falar que o misticismo está muito mais presente no livro. E eu adoro tudo o que seja místico, mitológico e por aí.

Gosto particularmente do facto de termos dois pontos de vista, o de Vianne e o de Reynaud, acérrimos rivais, cada um a achar que está a fazer o que é certo. Mesmo que seja óbvio de quem gosto mais.

Devo admitir que gostei do trocadilho das conversas que Reyanud tinha com o velho padre. Como a palavra não aparecia traduzida, ao início dava a impressão que Reynaud falava com Deus, confessando-se, quando na realidade visitava alguém em coma.

Adorei também o facto de termos uma história a sério sobre o tempo que Vianne passou com a mãe, e como as suas vidas eram (spoiler: NADA a ver com a versão do filme, a versão do livro até implica coisas bastante sinistras), explicando muito do porquê de Vianne não querer a mesma vida para Anouk.

Dada a sua presença constante na história, não posso deixar de falar da Páscoa, e sobretudo na Quaresma. Não deve surpreender ninguém se disser que fui criada como Católica, mas se calhar surpreende o facto de, essencialmente, nunca ter feito renúncias na Quaresma. Aliás, tirando meia dúzia de pessoas pseudo-beatas, as únicas pessoas que renunciavam a algo eram as freiras da minha terra. E mesmo essas nunca exageravam, quanto muito cortavam em doces, ou coisas mais supérfluas, mas era sempre, um ou dois tipos de doce. Afinal a doçaria conventual na minha região é de alta categoria, pecado seria renunciar-lhes!

Falando a sério, não sei se é puramente cultural, uma vez que mesmo sendo uma terra pequena, a minha consegue ser maior que Lansquenet, são duas terrinhas de dois países muito diferentes. Se calhar é porque os Católicos Portugueses apreciam muito a sua gastronomia. Se calhar é porque as pessoas da minha terra são um meio termo entre Reynaud e Vianne: Católicos de crenças, sim, mas com práticas pagãs pelo meio. Eu pessoalmente sou a favor desse meio termo, um bocadinho de paganismo faz bem à alma.

 

Helena:

Como leitora eu tenho as minhas próprias manias… e o facto pelo qual eu me demorei a ler este livro (ao contrário da Margarida) foi querer fazer com a história não terminasse logo. Eu estava a saborear o livro. Não só porque estava a gostar da leitura e da história, como o livro está repleto de descrições de bolos e chocolates. Acredito que devo ter engordado enquanto lia 😉

O livro não está a colocar a religião cristã contra o pagão e vise versa, mas sim a descrever o comportamento da pessoas nesta determinada história, que muitas vezes assistimos na vida real.

Vejamos, o jovem Padre Reynaud, caracterizado pela personagem Vianne como o Homem de Negro: demasiado austero para com ele próprio e com os habitantes da sua paróquia. Poder-se-ia afirmar que está perto do fanatismo ou extremismo. Quem não conhece uma pessoa religiosa que consideramos um pouco “fanática”? E o que é que normalmente está associado ao fanatismos/extremismo? Isso mesmo, ideias pré-concebidas que levam à discriminação e a discriminação poderá levar a crimes de ódio, tal como acontece no livro. Para além de Reynaud ser austero, ele deseja desesperadamente ser amado pelo “seu rebanho” e que este encare a religião como ele próprio a vê. E como tal não acontece, ele despreza as pessoas da paróquia pelos seus comportamentos a que associa ser pecado ou uma fraqueza e utiliza-os, manipulando-os para concretizar o que planeou sem que nunca o seu nome seja associado (psicopata é o que ele é!). Na minha opinião, encarou de forma errada o que a religião significa. Agora devem estar ai a pensar, “mas o que é que esta gaja sabe sobre religião se é ateia?” Bem, primeiro, para alguém tomar a decisão de não acreditar em nenhuma religião, tem de ter algum conhecimento. Eu fiz a catequese, fui baptizada e tenho a primeira comunhão… por isso, sim sei o que estou para aqui a falar. O que me ensinaram foi o perdão e aceitar aqueles que são diferentes de mim: “amar uns aos outros” (okay, eu não pratico muito o perdão, mas isso são coisas da vida).

O que realmente adorei neste livro foi o final de Reynaud (sim eu impliquei com o gajo!): SPOILERS o gajo empanturra-se de chocolate à frente de todos 😀

P.S.: Se eu tivesse uma avó extra seria a Armande! <3

 

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