Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – Três Cartazes à Beira da Estrada

Mildred Hayes é uma mulher zangada com a vida. Porque esta tirou-lhe um dos seus filhos de uma forma brutalmente macabra. Angela fora raptada, violada e morta. E a polícia não é capaz de encontrar nenhuma prova que aponte para o culpado da morte de Angela.

Assim, Mildred decide que a melhor maneira de chamar a atenção da polícia e toda a gente para o assassinato da sua filha é colocar três simples frases em três cartazes publicitários à beira estrada. E estas três pequenas frases transmitem uma mensagem poderosa:

  1. Violada enquanto morria.
  2. Ainda não há detenções?
  3. Então, xerife Willoughby?

Estes três cartazes vão não só chamar a atenção de todos como mudar a vida de Mildred de uma forma inesperada.

 

Inês:

Um filme lindíssimo, brilhante, e emotivo, sobre os resultados da raiva e a expressão do luto.

Este filme é um dos meus favoritos, senão mesmo o meu favorito. Eu sei, eu, sei, estou sempre a dizer que sou a fã número 1 do del Toro. MAS ESTE FILME É FANTÁSTICO!

Eu adoro a construção das personagens. São todas humanas. Têm uma carrada de defeitos, não fazem questão nenhuma de os esconder, e mesmo assim sentimos empatia, e gostamos genuinamente deles.

Acho que as personagens mais fáceis de se gostar são a mãe e o xerife. Logo ao início identificamo-nos imediatamente com ela: injustiça social e policial, falta de ação, possível incompetência. Depois descobrimos o que aconteceu à filha dela, e mesmo que não tenhamos filhos nem queiramos ter, não conseguimos deixar de sentir a raiva dela, a dor dela, a profundidade da sua mágoa. E ela não é uma personagem fácil de se gostar. Parece até que faz de propósito para nos pôr contra ela, com as atitudes, e o mau humor, e as explosões violentas. E ainda assim, qualquer um que já tenha perdido alguém próximo vai dizer-vos que são atitudes que fazem sentido.

E depois há o xerife. Logo ao início estamos contra ele, porque estamos do lado da mãe. E afinal, o homem é provavelmente a única pessoa decente que existe naquela localidade. E não é só a doença que nos faz ser mais sentimentais e gostar dele, é toda a sua personalidade, a maneira como ele lida com as pessoas à sua volta, e as coisas que lhes tolera (ou não).

Claro que não posso falar desta maravilha de filme, sem falar no deputado, Dixon, a personagem mais irritante que o filme todo nos apresenta. E no final, uma das personagens favoritas de toda a gente. Juro, no momento exato em que percebemos que, olha!, se calhar há uma hipótese de redenção para ele, durante a cena do incêndio. A única coisa em que pensei foi: “filhos da mãe, vão-me fazer gostar deste idiota chapado, não vão?” e foi exatamente isso que aconteceu.

Também gosto bastante do ritmo da história, não sabemos imediatamente o que aconteceu, vamos descobrindo aos poucos, e nunca parece forçado. Sei que já disse isto, mas a força do filme são as personagens, e as interações entre elas, e a forma como essas evoluem.

Confesso que, até certo ponto, o final soube a pouco, faltava só mais um bocadinho para ser mesmo satisfatório. Mas gosto mais do final que efectivamente nos deram. Faz mais sentido, tendo em conta o contexto das relações em evolução. Um final em aberto. Eles determinam as suas escolhas. Independentemente de quais sejam.

 

Helena:

O filme é preenchido por sentimentos desagradáveis como a infelicidade, perda, dor, raiva e ódio e talvez seja por isso que o torna tão fantástico ou que gostemos dele. Certamente se fossem representados apenas sentimentos relacionados com alegria provavelmente não iríamos gostar assim tanto e também não teria ganho os prémios que ganhou. E porquê? Porque não representaria a realidade. A vida não é uma constante onde a alegria reina. Aliás, todos nós lutamos diariamente para sermos felizes no meio de tanta merda que nos rodeia (sim, à nossa volta… olhem como está o Mundo).

A dor, mais especificamente, aquela que está ligada à perda de um ente querido pode levar uma pessoa a um estado de letargia e apatia, sem qualquer vontade de lutar (depressão estão vocês a pensar). Apenas sobreviver, um dia de cada vez. Mas também pode fazer com que a pessoa tome acção e lute. Mildred luta, e o combustível para essa luta é a raiva e o ódio, pela morte da sua filha e por a polícia não conseguir qualquer pista e aparentemente não se esforçar para investigar.

Apesar de tudo o que Mildred faz, por vezes toldada pelo ódio, sentimos-nos compelidos a gostar dela. Afinal de contas ela perdeu a sua filha e está em dor e é uma porra de uma lutadora! Quem não iria ficar do lado dela? Mesmo quando ela fez a estupidez de incendiar a esquadra da polícia com cocktail molotov… ela teve o cuidado de ligar para lá várias vezes para se certificar que não estava lá ninguém. Pois, infelizmente, o idiota do Dixon estava lá.

E por falar em idiota do Dixon, também há uma explicação para o seu comportamento agressivo e idiota (apesar de ser polícia), durante o incêndio na esquadra está a ler a carta que o xerife Willoughby lhe deixou, essa carta explica todo o seu comportamento durante o filme até aquele momento. Essa carta foi o ponto de partida para uma mudança no seu comportamento (qual fada madrinha e pós mágicos), a força das palavras da pessoa que ele mais admirava e que já não estava entre os vivos fez com que ele abrisse os olhos. E de repente, passa da personagem menos querida do filme, para igualar Mildred.

Torna-se a única pessoa no meio daquela localidade a compreender Mildred e a ter iniciativa para investigar o caso de Angela, mesmo já não sendo polícia (ninguém o mandou ser idiota e atirar Red pela janela do primeiro andar do edifício).

É difícil estar aqui a escrever sobre este filme e não desvendar tudo. Até porque existem coisas difíceis de serem explicadas. O melhor mesmo é verem o filme.

 

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