Call me by Your Name – Chama-me pelo Teu Nome

Estamos em 1983 e a família francesa Perlman tem uma casa de verão algures no Norte de Itália. Preparam-se para a chegada de um hóspede: Oliver.

Oliver é o assistente de pesquisa do Senhor Perlman (que é arqueólogo) e é americano. Quem não está muito contente com a ideia de ter de ceder o seu quarto é Elio (filho adolescente do Senhor e Senhora Perlman).

Após algum odio inicial por parte de Elio para com o hóspede, este começa a ter sentimentos mais “calorosos” em relação a Oliver. É ai que o romance nasce entre os dois.

Um amor de verão.

 

Inês:

Ok, vou abrir o jogo com a minha maior crítica, para passar o resto a dizer coisas boas: o facto do filme juntar um calmeirão de 20 e tal anos com um puto de 17 faz-me mais impressão do que a ideia de engatar um homem-peixe à lá del Toro. Pronto, já disse. Podiam ter feito o miúdo ter 18 anos, que não alterava nada, a não ser o fator creepy. E não me venham com “mas era outro tempo”, ou “mas na Itália não sei o quê”, não quero saber! É super creepy e acabou-se!

Tirando este problema, adorei o filme. É uma história de crescimento, é um romance, e é gay. E é um símbolo do quanto a sociedade, felizmente, está a evoluir. Já lá vai o tempo em que o Brokeback Mountain foi uma escandaleira de proporções desmedidas. E ainda bem.

Para além das paisagens serem lindíssimas, o filme consegue a proeza de ser o típico filme sobre um romance de Verão, e de ser único ao mesmo tempo.

O típico romance de Verão é a parte óbvia, mas onde entra então a originalidade? Bom, no facto de ser gay. “Mas o que é que importa ser gay?” Tudo. Importa o facto de estar a ser retratada uma relação homossexual que não encaixa nos estereótipos que lhe foram atribuídos pelos filmes ao longo dos anos.

Ninguém tem “tiques” nem maneirismos exagerados, a angústia não vai muito para além dum adolescente que perde o primeiro amor, e ninguém morre. Sim, aposto que nunca tinham reparado: na esmagadora maioria de filmes com relações homossexuais (que não são comédias), ou a angústia é extrema, ou pelo menos um elemento do casal morre, preferencialmente espancado precisamente por ser homossexual; normalmente as duas coisas acontecem.

É neste sentido que o filme é único: retrata um casal homossexual como um casal normal. O que acaba por ser triste, se pensarem nisso. Uma imagem normal não é a norma. “E o que é que tem? O que é que importa?” Bem, eu não sei quanto a vocês, mas se todos os filmes que retratassem pessoas com a minha sexualidade fossem absolutamente deprimentes, eu acho que não ia gostar. Se calhar este não é para os mais novinhos. Mas ainda há muita gente homossexual mais velha que não se sente segura para se assumir. Ainda tem medo. E os filmes que inicialmente os demonizavam, chamando-lhes a todos pedófilos, tarados, doentes, se fossem simpáticos, e depois passaram a gozar com eles não fizeram nada para minimizar esse medo. Muito pelo contrário. Filmes deste tipo normalizam relações não-heterossexuais. E já não era sem tempo. Já para não falar de retratar uma família que apoia o filho.

Uma parte da qual ouvi muita gente falar é o final, onde (SPOILER) vemos o Elio a chorar, e a cena continua, sempre com ele a chorar, e nós a vermos. E sinceramente, eu acho que isso é brilhante. Obrigar-nos a fazer o mesmo que o Elio está a fazer: confrontar as emoções, não fugir delas. E eventualmente aceitá-las.

Comparado com a competição, não me surpreende que não tenha ganho tantos prémios, havia filmes muito poderosos. O poder do Call Me By Your Name é mais subtil. Mas necessário, ainda assim.

 

Margarida:

Definitivamente este é um filme para pessoas de mente aberta. Acho que quem não tiver a capacidade de retirar certas barreiras preconceituosas e antiquadas da sua mente, nunca poderá apreciar a beleza deste filme. Ao dizer isto, estou a lembrar-me da reação que a minha avó, ou pessoas mais antigas e bastante conservadoras teriam ao ver este filme.

Eu, como pessoa de mente aberta, adorei o filme e emocionei-me bastante, tal como faria em qualquer outra história de amor que não acabasse da forma que eu queria.

Não conhecia o realizador Luca Guadagnino, mas devo dizer que fez um trabalho excelente. Reuniu atores perfeitos para os papeis principais, escolheu os locais de gravação mais pitorescos que nos dão todo um gostinho de Itália.

O filme não foi maçador, nem exagerado, retratando um primeiro amor entre dois rapazes. Os sentimentos e a relação entre eles não foi forçada, ao longo do filme vamo-nos apercebendo que os sentimentos evoluem lentamente para algo mais forte e mais real.

O que dizer em relação ao trabalho dos atores? Com Timothée Chalamet, o ator que dá vida a uma das personagens principais (Elio), acho que não tenho grande coisa a acrescentar, para além de que a química entre Elio e Oliver (Armie Hammer) foi inegável.

Como já disse, é uma história de um primeiro amor, um romance de verão. Ao longo do filme vamos acompanhando o jovem Elio que com 17 anos está a descobrir a sua sexualidade. Com “as hormonas aos saltos” conhece Oliver e notamos logo que após uma espécie de ódio inicial, Elio começa a interessar-se bastante pelo jovem americano. Não me perguntem o que significa aquela cena em que ele põe os calções de Oliver na cabeça que também não percebi… Talvez fosse uma atração crescente, todos nós fazemos coisas parvas quando estamos apaixonados. Gostei da história e gostava mesmo que tivessem ficado juntos, mas acho que no fundo até Elio e Oliver sabiam que não passava de um romance de verão e por isso decidiram aproveitá-lo o máximo possível.

Posto isto parece que não tenho nada de negativo a dizer, a não ser que senti um pouco de pena da amiga Marzia que estava apaixonada por Elio e que foi de certa forma “usada” por ele, sempre que ele tinha um desentendimento com Oliver. Ela acabou por compreender e continuaram amigos. Não sei se todas as raparigas reagiriam assim.

Para finalizar, devo dizer que gostei bastante e recomendo. Quem gosta de romances, não daqueles ideais em que se apaixonam e que fica logo tudo bem, tudo corre ás mil maravilhas e viveram felizes para sempre, mas daqueles reais, com problemas reais e onde nem sempre acaba bem, (porque a vida é assim) vai sem dúvida adorar este filme.

 

Helena:

É realmente preciso ter uma mente aberta, não só porque é um filme ao estilo francês – e nós estamos habituados a ver cinema americano onde as emoções são poderosas e por vezes exageradas! – mas também por ser sobre um casal homossexual – facto pelo qual não deveríamos ter uma mente aberta, porque não é nada de anormal – com uma diferença de idade que se faz notar: Elio tem 17 anos e Oliver mais de 20.

Se ainda existem pessoas que acham anti-natura uma relação homossexual, vamos imaginar em 1983!

É uma história fluída onde conta como duas pessoas se apaixonam e vivem esse romance, apesar de ambos saberem que não vai passar de um romance de verão e cada um irá seguir com a sua vida. Também é uma história que fala sobre a descoberta da sexualidade, por parte da personagem de Elio.

O que mais me surpreendeu e me deixou até bastante alegre foi o facto de os pais de Elio saberem do que se estava a passar e aceitarem com naturalidade o amor de Elio e Oliver, apesar deste último ser um bocadinho mais velho. A conversa que Elio teve com o pai deixou-me bastante emocionada – mas não ao ponto de chorar, é claro – pois fala de aceitação e da oportunidade de ser feliz com quem amamos e nos ama, sobre o grande amor da nossa vida – o que nem toda a gente tem oportunidade de viver, pois as circunstâncias da vida por vezes são madrastas – e aceitar todos os sentimentos, até a dor. Por vezes quando algo nos magoa muito, queremos deixar de sentir essa dor, mas se a deixarmos de sentir então a alegria que havíamos sentido anteriormente não teria sentido. Não há tristeza sem alegria, nem alegria sem tristeza.

O filme não me repugna sobre o facto de ser sobre um casal homossexual e muito menos pela diferença de idade entre o casal, pois o filme não retrata um homem mais velho que apenas quer ludibriar e aproveitar-se sexualmente de alguém mais novo – que é o que acontece com frequência na realidade  – o filme retrata um amor puro.

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