Grimm’s Bad Girls and Brave Boys – A Verdadeira História dos Irmãos Grimm

Já que mandei a dica há uns meses atrás, resolvi sentar-me e proceder então queixar-me como deve de ser.

Toda a gente ouviu contos de fada quando era pequeno. Mais não fosse, as versões da Disney. E algures pelo caminho percebemos que as versões da Disney não eram os originais. E então, como criaturas curiosas que somos, procurámos saber quais eram afinal as histórias originais. E acabámos por ir parar aos Irmãos Grimm, os autores das histórias originais, que eram muito mais violentas do que aquelas que nós ouvimos.

Completa.

E totalmente.

Errado.

Para já: os irmãos Grimm não são autores de coisa nenhuma. Eles limitaram-se a recolher contos e lendas, folclore em geral por essa Europa fora, particularmente na Alemanha, e juntá-los todos numa coleção. Uma coleção essencial, porque nos permite, até certo ponto, ver aquilo que era considerado virtuoso e perigoso na altura. Se ao menos fosse efetivamente só isso.

Eles não se limitaram verdadeiramente a recolher e colecionar as histórias, não. Eles fizeram questão de as alterar. Aquela ideia de que as “histórias originais” eram muito violentas e gráficas? Pois, na sua esmagadora maioria não o eram, mas estas duas alminhas, fizeram questão de as tornar violentas. Querem exemplos práticos? Aqui vão, com links para as fontes e tudo (spoilers, just in case):

 

Cinderela

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Autor: Charles Perrault 

História Original: As irmãs tentam calçar o sapato de cristal e não conseguem. No final a Cinderela convida as irmãs para viver no palácio, e arranja-lhes casamentos com nobres da corte.

História da Disney: No final a Cinderela casa com o príncipe, e as irmãs e a madrasta têm que arranjar empregos (ou maridos ricos).

História à lá Grimm: As irmãs tentam calçar o sapato de cristal e não conseguem. Para o  conseguirem a madrasta corta o calcanhar a uma e o dedo grande do pé a outra. O sapato serve, mas o sangue não pára de escorrer, e o truque não funciona. Depois do sapato servir à Cinderela (sem que o sangue seja limpo, diga-se de passagem), os pássaros que a ajudaram ao longo da história bicam os olhos das irmãs e cegam-nas.

No

 

Branca de Neve

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Autor: Não tem autor, é um conto Alemão, com várias versões que eram passadas de geração em geração.

História Original: Tendo em conta a existência de várias versões, os irmãos Grimm escolheram publicar a sua favorita/possivelmente a mais popular na zona de onde a recolheram. Mesmo assim existem diferenças a salientar entre as várias versões, nomeadamente: em vez de anões, a Branca de Neve refugiou-se com ladrões; em vez de um espelho a rainha má falava com o Sol, ou com a Lua; a rainha não tinha nada a ver com a Branca de Neve, só inveja da sua beleza e juventude.

História da Disney: Madrasta/Bruxa má. Branca de Neve foge. Madrasta ordena ao caçador que lhe traga o coração de Branca de Neve, mas ele não o consegue fazer. Branca de Neve encontra os 7 anões e arruma-lhes a casa. Madrasta aparece disfarçada de velha e dá-lhe a maçã envenenada. Branca de Neve cai num sono profundo, os anões perseguem a bruxa até que ela cai de um precipício abaixo. Os anões metem a Branca de Neve num caixão de vidro (onde raio é que eles arranjaram uma coisa daquelas???), por razões estéticas, imagino. Aparece o príncipe que espeta um beijo na Branca de Neve, e ela acorda e vive feliz para sempre.

História à lá Grimm: A bruxa/rainha também é madrasta da Branca de Neve (embora existam fontes que afirmam que os Grimm planearam, originalmente fazê-la mãe dela; era mais dramático, imagino eu); também pede ao caçador para a matar, mas pede-lhe o coração e o fígado (ou o fígado e os pulmões, depende da tradução), como objetivo de os comer, para adquirir a beleza dela. No final, a bruxa é convidada para o casamento do príncipe e da Branca de Neve, e quando lá chega é capturada, e obrigada a usar sapatos (ou botas, depende da tradução) de ferro incandescente, e dançar até morrer. Ah, e já agora, não foi beijo nenhum que quebrou um feitiço, foi um solavanco do caixão que a fez cuspir um pedaço de maçã preso na sua garganta. Porque é que o caixão deu um solavanco? Porque o príncipe o atrelou ao cavalo, para levar a Branca de Neve para o seu palácio. Porquê? Não faço a mais pálida ideia.

 

Bela Adormecida

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…Eu queria evitar falar disto, mas vai ter que ser, é das únicas em que os Grimm fizeram bem em mudar coisas.

História da Disney: Princesa nasce, três fadas vão oferecer-lhe dons, mas chega uma fada má que a amaldiçoa. As fadas criam a princesa até ela ter 16 anos. Aos 16 anos a maldição cumpre-se, e ela adormece. As fadas enfeitiçam o resto do castelo. O príncipe derrota a fada má; que é também um dragão. Só estilo, esta malta. O príncipe beija a princesa, ela acorda e vivem felizes para sempre.

História Original: São considerados dois originais: o de Charles Perrault (sim, ele outra vez), no qual a versão dos Grimm se baseia, e o do Italiano Giambattista Basile, a primeira de todas. A de Perrault (e dos Grimm) é muito semelhante aquela que conhecemos no filme da Disney, mas sem dragões, e no final a fada má não morre; já se vingou, e deixou-os em paz. Os irmãos Grimm, desta vez, não alteraram por aí além a versão de Perrault, mudando apenas a história da fada má, para ela ser mais vingativa.

Agora, vem o verdadeiro problema… a versão de Basile.

A princesa não é vítima de uma maldição, mas sim de uma profecia – uma lasca (a árvore varia conforme a tradução) vai fazer com que ela pareça morta, mas está só a dormir, e só acordará quando a lasca for removida.

A rapariga fica com a lasca, o rei fica deprimido porque mesmo que saiba que a filha não morreu, não consegue ficar perto dela, e então abandona o castelo, e deixa-a lá, numa cama de veludo. Gente rica.

Alguns anos depois, passa por lá um príncipe, que entra castelo adentro, curioso, e depara-se com a princesa. E eu vou simplesmente chamar as coisas pelos nomes, ele viola-a. Sim, foi isto que aconteceu, ele violou-a. Repetidamente. Só deixou de o fazer durante algum tempo, porque notou que a barriga dela estava a crescer, e ela estava quase a parir.

Neste entretanto nascem gémeos, e a rapariga ainda a dormir! Os gémeos começam a chuchar, à procura de comida, e um deles acaba por chupar a lasca para fora do dedo da princesa. AGORA ela acorda. E vê-se sozinha, violada, e com duas crianças.

Mas não se preocupem, o príncipe voltou (presumivelmente depois de ter achado que tinha passado tempo suficiente para se ver livre das crianças), e acabou por casar com ela. Portanto acabou tudo bem. *sarcasmo de nível extremamente avançado*

 

 

À semelhança da versão da Branca de Neve, existem relatos contraditórios sobre as opiniões dos irmãos – por gosto pessoal queriam registar a versão de Basile, mas a popularidade da versão de Perrault “obrigou-os” a registar a versão “mais suave”. Apesar disto, os próprios irmãos suavizaram os contos ao longo dos anos e das edições, tornando-os mais poéticos e menos horripilantes.

 

O título – bad girls and brave boys – foi inspirado por um livro que trata precisamente daquilo que eu acabei de descrever, e aponta ainda como muitas vezes os papéis das personagens principais foram reduzidos, trocados, ou aniquilados completamente. Os heróis são sempre homens (ou rapazes, hoje em dia, convenhamos), as meninas são sempre donzelas em necessidade de auxílio, e a esmagadora maioria das mulheres são bruxas. E más, ainda por cima.

Prova daquilo que escrevi acima, vem da coletânea de Franz Xaver von Schönwerth, que recolheu contos de fada sensivelmente na mesma altura que os irmãos Grimm (década de 1880), cujas histórias oferecem o oposto daquilo que já percebemos que os Grimm gostavam – Franz oferece-nos princesas valentes, e príncipes assustados, bem como padrastos abusivos. Na sua versão da Cinderela, por exemplo, esta usa os seus sapatos de ouro – não de cristal – para salvar o seu príncipe que se encontra para além da lua. Curiosamente, um dos irmãos Grimm, Jakob, teceu enormes elogios a Franz.

 

Depois de saber isto tudo, irritam-me um bocado aquelas pessoas que pegam em contos de fadas e lhes dão “um toque negro, sinistro”, tipo “Alice no País das Maravilhas, mas é, tipo, com drogas e assim”, ou “Peter Pan, mas, tipo, com drogas e assim”. Hum. Começo a achar que se calhar há aqui um padrão…

Reinventar, ou basear-se em contos de fadas e folclore não tem mal nenhum. Caraças, eu própria sou culpada disso. Acho até louvável, um exercício de imaginação excelente. Quer dizer, uma história em que a Cinderela vai à Lua??? Sign me the fuck up! Mas não façam de conta que as versões sinistras de histórias infantis são coisa nova. Mesmo que incluam “tipo, drogas e assim”. Vão pela originalidade a sério. “Tipo, a Pequena Sereia, mas, tipo, com aliens, tás a ver?” Não, não estou a ver, não faço ideia. Mas era capaz de pagar para ver.

Boa noite pessoal!

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