Livro vs. Filme: Um Crime no Expresso do Oriente

Cada vez mais existem adaptações de livros para cinema ou série (caso sejam mais do que um). Não são escolhidos livros ao acaso para tal, a maioria das adaptações vêm de bons livros, que nos prendem pela narrativa, pelos personagens ou apenas pelo sentimento que acordam em nós e os valores (quais sejam) que passam. Sejam, eles clássicos ou mais recentes, bons livros são adaptados para o grande ecrã, para alegria de uns e tristeza de outros.

Estreamos o nosso Clube do Livro com um clássico de Agatha Christie (podem rever a publicação aqui), “Um Crime no Expresso do Oriente” que já havia sido adaptado há uns anos atrás… e voltou a sê-lo em 2017. Vamos agora partilhar a nossa opinião com vocês.

Inês:

O tom ao início é muito mais leve, e a personalidade das personagens também.

Quanto ao Poirot… desculpem-me mas David Suchet para além de fazer um sotaque convincente, não transformou a personagem numa imitação barata do Sherlock Holmes, e o bigode era muito mais icónico, pronto, já disse! O BIGODE DO DAVID SUCHET ERA MUITO MELHOR! RAIOS PARTAM AS MADEIXAS QUE ESTE TEM!.

Ainda que não seja lá muito fã do Johnny Depp, devo admitir que me deu um certo gosto vê-lo assassinado. Ainda assim, as diferenças entre as personalidades das personagens continuam a fazer-me impressão. A personagem de Depp era suposto ser desconfiado e paranóico, desde o início, não um pseudo-engatatão. E pediu ajuda ao Poirot, sim, mas não lhe apontou uma arma – lá está: paranóico, e desejando que não dessem por ele.

O amigo de Poirot também teve bastante menos encontros com prostitutas, e o verdadeiro Poirot, ainda que tolerante, conseguia ser bastante púdico. Mas o filme apesar de vender um mistério de assassinato, parece achar que também deve ser uma comédia. Para isso já existe o filme Clue, que além de muito melhor executado, tem o Tim Curry no elenco, e o Tim Curry é sempre uma preciosidade. Por todos os filmes com uma estrela em que participou, eu garanto-vos, ELE é a razão pela qual o filme teve essa estrela.

Como já perceberam, não vou parar de me queixar: O POIROT TEVE UM AMOR QUE DEIXOU ESPACAPAR, SIM, MAS ELA NÃO SE CHAMAVA KATHERINE, NEM ELE ANDAVA COM UMA FOTO DELA ATRÁS! ALIÁS, SÓ DESCOBRE DE QUEM SE TRATA QUEM LÊ UM LIVRO ESPECÍFICO DE ENTRE TODOS OS QUE A AGATHA CHRISTIE ESCREVEU, PARA O RESTO DAS PESSOAS É UM MISTÉRIO, ASSIM COMO GRANDE PARTE DA VIDA DO POIROT.

E OUTRA COISA: ninguém trocava o primeiro nome do Poirot, nunca ninguém lhe chamou “Hercules” em vez de “Hercule”, a irritação dele era pelo facto de insistirem em pronunciar o apelido dele à inglesa, sem carregar no “r”. E isto também tem a ver com a personalidade do Poirot: as excentricidades dele estão profundamente ligadas ao seu feitio calmo e reservado. O homem não se parte a rir do meio do nada a ler um livro, por amor de Deus! Eu faço isso, mas não Hercule Poirot! O homem tem compostura! (E já agora, não usa a bengala só como um acessório, precisa efetivamente dela, porque para além da idade, é implícito que foi ferido durante a 1ª Guerra Mundial).

Ok, tentando encontrar coisas boas: apesar da ordem pela qual revelavam informação estar trocada, e da alteração às suas personalidades, gostei bastante das performances de Daisy Ridley enquanto Mary Debenham, e Judi Dench enquanto Princesa Dragomirof. Josh Gad também mostrou ser capaz de fazer mais do que comédia, o que foi bem-vindo neste desastre de filme. E como não podia deixar de ser, Willem Dafoe foi magnífico (tendo em conta as limitações que impuseram à sua personagem).

Foi cortado muito tempo e atenção a algumas personagens, mas isso percebo que se deva à transição de um livro para um filme.

Já é frase-feita hoje em dia, mas quem é fã do livro, ou do Poirot em geral, não vai gostar da maioria das mudanças feitas.

Enquanto um filme por si só…tenho plena noção do quão enviesada estou, mas acho que de um modo geral sofre de um problema de ritmo. Ora leva tempo a instalar a cena e o tom, com as personagens e as descobertas, ora tanto o diálogo, como a transição das cenas passa a correr. Isso faz com que uma história que por si só podia ser um filme bom, se torne mais confuso do que deveria ser. Já para não falar nas cenas de ação desnecessárias. Por favor não me façam falar disso.

E antes que me esqueça, o final é mais um exemplo de uma complicação desnecessária. Resumindo: ainda bem que não paguei pra ver isto.

Helena:

Começo a pensar que é uma péééssima ideia ler os livros e só depois ver os filmes. Já percebi que fico menos dececionada quando vejo os filmes e só depois leio os livros. Isto porquê? Crio sempre grandes expectativas sobre o filme, talvez tenha esperança que o filme realmente não seja diferente do raio do livro… pelo menos assim tanto. Compreendo que tenha de existir uma adaptação (daí serem adaptações!) para melhor se enquadrar no mundo do cinema.

Ora bem, percebo a introdução do filme, para incutir no público o grande detetive que Poirot é. Poirot é um grande detetive. Pronto… depois disso, a coisa, o filme quer eu dizer descarrila por completo. Porque o primeiro pensamento que me ocorreu foi este “Mas que m*rda é está?!”, perdoem-me o palavreado.

Começar por onde? As personagens??? Bem, só uma ou duas ficou, na minha opinião, fiel ao livro, todas as outras estão completamente diferentes! A mais gritante é aquela que o ator Johnny Depp (não partilho o mesmo sentimento aqui da Inês em relação a ele, não é o melhor ator, mas não sejamos tão duros), o Senhor Ratchett era suposto ser velho. Velho de cabelos brancos com rugas e peles caídas e todas essas coisas! Também não era suposto ser um “sedutor” arrepiante.

E as trocas de falas no cenário? Acredito que escreveram em papelinhos as falas e os cenários e tiraram ao acaso. É realmente nisso que acredito. Aquela cena de acção, mais o drama… totalmente desnecessário e estúpido. Um bom filme de mistério e suspense NÂO necessita de ação ou sequer de drama. E, porque raio fizeram as personagens saíram do comboio quando no livro isso não acontece? Quando Poirot se quer dirigir a todos os ocupantes fá-lo no vagão do restaurante.

Resumindo: não era necessário criar tantas alterações ao livro, ele próprio é interessante e bem realizado ficaria um excelente filme.

Margarida:

Quando acabei de ver o filme pensei: – Bom, mais uma má adaptação de livro para o cinema, de entre todas as outras que já existem…

Estava á espera de algumas alterações, mas que passassem meio desapercebidas. O que como é óbvio não aconteceu. Desiludi-me um bocadinho.

Tal como no livro, o filme começa muito monótono. Neste caso temos inicialmente até a resolução breve de um caso simples pelo detetive Poirot, que não aparece no livro. Só aquando da ocorrência do crime é que o enredo avança.

Embora algumas das personagens do filme sejam idênticas ás do livro, as suas personalidades não são aquilo que esperava.

Poirot, embora permaneça com uma intuição apurada e um raciocínio fascinante, mostra-se convencido e deixa transparecer mais facilmente as suas emoções, ao contrário do livro, onde temos um detetive mais modesto e reservado.

O desenrolar da história em si foi mais caótico, em termos dos interrogatórios e da descoberta das pistas, principalmente a da arma do crime. Talvez fosse essa a intenção, deixar-nos numa desordem total, sem que se consigamos encaixar as peças tão facilmente como o detetive belga.

Outro ponto destoante e que me incomodou bastante foi o facto de as personagens poderem sair do comboio. Poderiam ter escondido a arma do crime, ou livrar-se do corpo, tanta coisa que pode acontecer pelo simples facto de ser possível abandonar a carruagem. No livro as personagens nunca deixaram o comboio devido ao nevão e para sua própria segurança. Ninguém entrou nem saiu da carruagem, é esse mistério que fica a pairar no ar até ao final do livro, é isso que nos deixa agarrados á trama.

Embora a conclusão tenha sido a mesma, e a resolução tenha sido semelhante não consigo ultrapassar o facto de o livro ter sido de facto melhor.

Quem não leu o livro pode até apreciar o filme, mas ficará apenas com um gostinho do universo que Agatha Christie criou para este mistério no Expresso do Oriente, desvendado pelo seu melhor detetive.

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