Colossal – Um Filme tão simples, tão Ridículo, e TÃO BOM!

Aviso-vos já que isto vai ter spoilers, porque eu não consigo evitar analisar/explicar o filme, e que vai ser ENORME.

Um pequeno resumo, antes de mais: Gloria, a personagem principal, é uma alcoólica cuja vida tem ficado progressivamente pior devido ao seu problema. Vive em Nova Iorque com o seu namorado, Tim, que a põe na rua por não aguentar o estilo de vida desregrado que ela leva. Gloria decide então voltar para a sua casa de infância e tentar pôr a vida em ordem. Pelo meio reencontra um colega de infância, Oscar, que a ajuda a arranjar a casa, e lhe oferece um emprego no seu bar (sim, uma alcoólica a trabalhar num bar, já lá chegamos). Através de peripécias, descobrimos a premissa ridícula do filme: por motivos desconhecidos, Gloria, ao estar numa localização específica, numa hora específica, materializa e controla um monstro gigante que aparece na cidade de Seul, na Coreia do Sul.

Por onde começar com isto…

Então; o filme parece, à falta de melhor palavra, parvo. E em parte é isso mesmo. O que não quer dizer que não seja bom. É uma espécie de Cavalo de Tróia, porque começa como uma comédia comum, mas desenvolve-se para um drama fantástico que explora as relações humanas; é o melhor exemplo do termo “dramédia” que já vi.

Começamos logo com uma personagem principal com falhas graves – a Gloria é alcoólica, irresponsável, e não consegue manter um emprego, apesar do talento que tem. Apesar disto, vemos que ela tenta melhorar; e vemos que ela falha muitas vezes ao fazê-lo. E eu ADORO isso, porque não só temos uma personagem com um problema grave, como não deixamos de ser capazes de simpatizar com essa personagem – queremos que ela consiga ultrapassar o vício, e cada vez que ela falha só o queremos mais – como temos uma representação de luta contra vícios que não mostra uma recuperação instantânea devido apenas a “força de vontade”.

O namorado de Gloria, Tim, é-nos apresentado numa situação em que seria fácil fazer dele o mau da fita, ou, com o perdão da palavra, um cabrão que não quer saber da namorada. Mas isso não acontece. Pelo contrário, compreendemos o ponto de vista e as motivações de Tim, e chegamos mesmo a concordar com ele – a Gloria tem de mudar de vida – e ele escolheu uma espécie de “terapia de choque” para ajudar a concretizar esta mudança. É fácil identificarmo-nos com ele neste momento, porque vemos um contexto que já se arrasta há algum tempo, e ele não reage de forma muito diferente da maioria de nós (lembrem-se disto, porque vai voltar a aparecer mais à frente).

Quando Gloria volta à sua cidade natal, encontra um velho amigo, Oscar. Este oferece-lhe boleia, mostra-lhe o seu bar, oferece-lhe emprego e apresenta-lhe os seus amigos mais próximos – Garth e Joel. Joel e Gloria têm um clima entre si, e Joel interpreta mal alguns sinais de Gloria, e tenta beijá-la, afastando-se imediatamente assim que ela se afasta e ele percebe que errou. Mas quando Oscar se apercebe disto começa a gritar com Joel, defendendo Gloria. Esta cena, segundo outros artigos de opinião sobre o filme que já li, é usada como o primeiro exemplo de ciúmes por parte de Oscar (continuem a ler, porque já vou mostrar como isso não é bem assim), mas eu interpreto-a como simples proteção. Aliás, é até muito fácil ficar a pensar que Joel não afinal tão simpático assim, devido ao modo como Oscar reagiu (spoiler – é sim, coitadinho, é só tótó).

Gloria continua a embebedar-se todas as noites, e esta noite no bar de Oscar não é exceção. As únicas diferenças notáveis? Gloria conta a Oscar a verdade sobre como a sua vida está em farrapos – o que faz com Oscar a ajude, oferecendo-lhe mobílias e uma televisão para a casa -, e um monstro gigante tem aparecido em Seul, destruindo partes da cidade e aterrorizando a população.

Continuando a ajudar Gloria, Oscar oferece-lhe emprego no seu bar – pôr alguém com problemas de bebida a trabalhar num bar não parece exatamente boa ideia, mas Oscar também começa a demonstrar alguma dificuldade em respeitar os seus limites no que toca ao álcool, logo, não me parece a pessoa certa para avaliar a sensatez das situações.

Tendo um emprego a ocupá-la, Gloria começa a beber menos – nem que seja apenas por ter menos tempo para o fazer -, e começa a analisar as imagens do monstro, e a descobrir padrões e tiques que ela própria apresenta. Por mais estúpido que pareça, Gloria faz uma experiência, para verificar se tinha razão, e descobre que sim; ela controla um monstro gigante no outro lado do mundo.

Mas há outra… questão: após Gloria ter causado uma grande destruição ao cair acidentalmente, descobriu-se que Oscar também pode materializar uma figura em Seul – um robô. Por algum motivo, Oscar e Gloria estavam ligados entre si, e com a cidade de Seul. Com a ajuda Oscar, Gloria escreve uma mensagem a desculpar-se ao povo de Seul, e no rescaldo da mesma, vai com Joel para a sua casa, e passam a noite juntos.

E é a partir daqui que o drama começa.

Gloria acorda para ver nas notícias o robô gigante a assustar pessoas. Oscar está (obviamente), bêbado. Gloria vai em socorro das pessoas de Seul e discute com Oscar, acabando por lhe dar um estalo. Após este episódio Oscar começa a demonstrar agressividade para com os amigos.

Tim manteve o contacto com Gloria, que lhe ligava regularmente. Contudo, esta só soube que ele estava na sua cidade natal “em trabalho” bem depois de ele ter chegado. Gloria vai ter ao hotel onde Tim está instalado, e conta-lhe sobre o emprego que arranjou. Mas ao contrário daquilo que Gloria (e a audiência) estava à espera, Tim não se mostra feliz pelo seu progresso; muito pelo contrário, Tim parece…ofendido, por Gloria trabalhar como uma empregada de mesa, denegrindo a sua decisão, como se fosse preferível ser desempregada a ter um trabalho, na opinião dele, reles.

Mais uma coisa para acrescentar ao drama do filme – Tim, mais uma pessoa na vida de Gloria que aparentava ser equilibrada e decente de um modo geral, que se revela tudo menos isso. Tim é controlador e algo egocêntrico, chegando mesmo a ser elitista com as opiniões que expressa. Mesmo assim, ele admite que foi um idiota (palavras dele, eu não seria tão simpática, como já devem ter reparado), e aceita que Gloria o leve a conhecer o seu novo local de trabalho. E se vocês já estavam com a pulga atrás da orelha com o Oscar, preparem-se; só fica pior a partir daqui.

Quando Gloria apresenta Tim e Oscar, Tim está claramente constrangido, mas a fazer um esforço para ser simpático, e apreciar o espaço onde se encontra; assim é que é, Tim. Mas Oscar é imediatamente agressivo para com Tim. Inicialmente parece que voltou ao instinto de proteção para com Gloria, agindo como um estereótipo de um irmão mais velho que conhece o rufia que magoou a irmãzinha; se ao menos este filme seguisse estereótipos…(estou a brincar, ainda bem que eles estão completamente ausentes).

O comportamento de Oscar começa a piorar, e a chegada de Tim à cidade só veio piorar a situação. Oscar tira da despensa do bar um tubo de fogos de artifício do meu tamanho (sou baixa, mas não é isso que interessa aqui), e acende-o dentro. Do. BAR! COM CLIENTES LÁ DENTRO!

Na verdade, tratou-se tudo de uma demonstração de poder; poder que ele tinha sobre Gloria; poder que Tim já não tinha. A PORCARIA QUE ESTE GAJO FEZ AINDA! NÃO! ACABOU! Chiça, acho que não odiava tanto uma personagem à anos!

Quando lhe pede explicações, Gloria passa a conhecer o verdadeiro Oscar, quando este lhe diz que ela pode ir embora à vontade, com o Tim, ou com outra pessoa qualquer, mas que se ela não estiver no sítio certo, à hora certa, ele vai lá estar, vai destruir a cidade e matar inocentes, e ela não o vai poder impedir.

Sei que já contei basicamente o filme todo, mas acho que vou parar por aqui o resumo, e ir diretamente às análises que me interessam.

Muita gente diz que o filme é sobre as relações entre os géneros, nomeadamente a luta e expectativas de poder entre eles, e que conta a história de uma mulher que sente a necessidade de se emancipar. Eu defendo a liberdade de interpretação, e sou honesta, há muita coisa neste filme que pode levar às interpretações que já mencionei. Mas pessoalmente eu vejo as coisas ligeiramente diferente.

Para começar, tenho uma certa dificuldade em ver o filme sobre a ótica da proverbial “guerra dos sexos”, porque, 1: odeio solenemente essa expressão, e 2: acho difícil comparar um género ao outro neste filme, quando temos uma personagem feminina “rodeada” por 3 ou 4 masculinas. Portanto, eu interpreto filme sob a ótica das relações humanas, nomeadamente, das relações abusivas. Acho que é por a parte do abuso – tanto psicológico como físico, e tanto observado como implícito – ser tão prevalente e tão importante, que as pessoas interpretam a relação de Oscar e Gloria como uma relação “amorosa” abusiva. Mas há uma coisa que muita gente infelizmente se esquece: que as relações de amizade também podem ser abusivas, e eu acho que é isso que está aqui presente.

Oscar vê Gloria em baixo, completamente perdida e desesperada. E decide ajudá-la. Não porque é boa pessoa, como já perceberam, nem porque a quer fazer dependente dele. Mas porque a vida de Oscar é também miserável, e ele gosta de se rodear de pessoas que estão, ou estiveram, pior do que ele próprio, porque só assim é que ele se sente bem – o Joel é um pau mandado que faz o que Oscar manda, e o Garth é um (ex?) toxicodependente, logo, pessoas que Oscar considera inferiores a si mesmo -, e Gloria é só mais uma engrenagem neste mecanismo doentio. Aliás, em retrospetiva é possível perceber aquilo que para mim é o ponto principal do filme, e da relação entre Oscar e Gloria: inveja.

Oscar tinha inveja de Gloria quando eram crianças (está presente em vários momentos ao longo do filme, incluindo em elogios velados), e essa inveja manteve-se quando ela saiu da “terrinha” para a “cidade grande”, quando ela teve sucesso fora da terrinha, e até mesmo quando a Gloria, no seu ponto mais baixo, continuava a ser melhor do que Oscar. As cenas que muita gente interpreta como ciumeira eu interpreto como inveja: a Gloria consegue ter relações íntimas, quer de amizade, quer românticas, e o Oscar, na sua opinião, infinitamente melhor do que Gloria, não é capaz de o fazer, logo ele, que é tãããããooo fixe (este sarcasmo foi tão forte que tive uma cãibra).

A presença de Tim é mais um sucesso de Gloria que Oscar não pode admitir, sentido então a necessidade de a ameaçar, para que ela possa continuar a ficar por perto dele, para ele a denegrir e alimentar a sua autoestima. No fundo, Oscar é um típico narcisista – esconde inseguranças profundas por detrás de uma necessidade de espezinhar os outros para se sentir superior (estou a generalizar e a resumir muito os traços do narcisismo, mas se me pusesse a descrever esse “tipo” de personalidade em detalhe, nunca mais saíamos daqui).

Vou (FINALMENTE!) acabar, comentando o quanto acho engraçada a subversão dos estereótipos dos monstros de Gloria e de Oscar.

Toda a gente se lembra dos Power Rangers, certo? E toda a gente se lembra que eles eram os heróis que, dentro de um robô gigante, lutavam contra o vilão, um monstro gigante. Logo: robô=bom, e monstro=mau (esta “fórmula” tem razão de ser na cultura oriental, sobretudo no Japão, representando, resumidamente, o triunfo da tecnologia e do espírito inovativo sobre os medos e monstros do antigamente, que podem representar muita coisa, desde superstições, a ideologias políticas, a consequências de bombas atómicas).

E o filme parece seguir esta fórmula (a princípio): Gloria, uma alcoólica desequilibrada, é o monstro, e Oscar, o generoso e protetor amigo de infância, é o robô. Quem conhece mais ou menos a razão de ser da “fórmula” que mencionei à pouco (tipo outros nerds como eu), podia ser levado a pensar que a Gloria não ia conseguir mudar, tornando-se efetivamente um monstro, e que a personagem principal acabaria por ser o Oscar, o robô que derrota o monstro.

Mas, tal como é apanágio deste filme, os papéis são trocados, e o monstro, a pessoa com as falhas evidentes, é o herói, e o robô, o símbolo do bem e o poço de virtudes lá do sítio, é o vilão.

Já vi pessoas a interpretar a parte mais ridícula do filme como sendo metafórica, mas eu gosto da interpretação literal. Patetice faz bem de vez em quando.

Deixo-vos com uns trailers do filme, e espero que o vejam, com as minhas (enormes) análises em mente.

 

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